O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 52

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA a oeste, o labirinto infinito de Ruas e avenidas atropelando-se umas sobre as outras em direção ao monte Tibidabo. — O que me diz? Uma maravilha, não? — comentou o bancário, entusiasmado. O corretor examinava tudo com reserva e desgosto. Seu secretário mantinha a lanterna no alto, embora não fizesse mais falta alguma. Aproximei-me de uma das janelas e debrucei-me no céu, fascinado. Barcelona inteira aparecia a meus pés e comecei a acreditar que, quando abrisse minhas novas janelas, ao anoitecer as Ruas sussurrariam a meu ouvido histórias e segredos, para que os eternizasse no papel, espalhando para quem quisesse ouvir. Vidal tinha sua exuberante e nobre torre de marfim na parte mais alta e elegante de Pedralbes, rodeada de colinas, árvores e céus de sonho. Eu tinha meu sinistro torreão erguido sobre as Ruas mais antigas e tenebrosas da cidade, rodeado pelas emanações e trevas daquela necrópole a quem os poetas e os assassinos deram o nome de "Rosa de Fogo". O que consolidou minha decisão foi a escrivaninha que dominava o centro do estúdio. Sobre ela, como uma grande escultura de metal e luz, descansava uma impressionante máquina de escrever Underwood, pela qual eu já daria o preço do aluguel. Sentei na cadeira de marechal que estava diante da mesa e acariciei as teclas da máquina, sorrindo. — Vou ficar com ela — disse. O funcionário do banco suspirou de alívio e o corretor, revirando os olhos, fez o sinal- da-cruz. Naquela mesma tarde assinei o contrato de aluguel por dez anos. Enquanto os operários da companhia de eletricidade instalavam a luz, comecei a limpar, organizar e arrumar a casa com a ajuda da tropa de três empregados que Vidal enviou, sem nem perguntar se precisava de ajuda ou não. Logo descobri que o modus operandi daquele comando de especialistas consistia em furar as paredes a torto e a direito e só perguntar depois. Três dias após a sua chegada, a casa não tinha uma única lâmpada funcionando, mas qualquer um diria que havia uma infestação de carunchos devoradores de gesso e minerais nobres. — Quer dizer que não há outra maneira de solucionar isso? — perguntava eu ao chefe do batalhão, que resolvia tudo com marteladas. Otílio, pois era assim que se chamava esse talento, mostrava um jogo de plantas da casa que o corretor tinha entregue junto com as chaves e argumentava que a culpa era da casa, que tinha sido mal construída.