O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 50

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 8 Anos depois, ao ler a crônica de alguns exploradores britânicos que penetraram nas trevas de um milenar sepulcro egípcio, com labirintos e maldições incluídos, haveria de relembrar aquela primeira visita à casa da torre da Rua Flassanders. O secretário compareceu munido de um lampião a óleo, pois nunca chegaram a instalar a luz na casa. O funcionário do banco trouxe um jogo de 15 chaves para abrir os incontáveis cadeados que seguravam as correntes. Ao abrir o portão, a casa exalou um hálito pútrido, de sepultura e umidade. O funcionário começou a tossir e o corretor, armado com sua melhor expressão de ceticismo e censura, colocou um lenço na boca. — O senhor primeiro — convidou. A entrada era uma espécie de pátio interno, de uso comum nos antigos palácios da região, com um revestimento de grandes lousas e uma escadaria de pedra que subia até a porta principal da residência. Uma clarabóia de vidro completamente afogada por excrementos de pombos e gaivotas piscava no alto. — Não há ratazanas — anunciei ao entrar no edifício. — Alguém devia ter bom gosto e bom senso — disse o corretor às minhas costas. Seguimos escada acima até o patamar de entrada para o andar principal e o funcionário do banco precisou de dez minutos para encontrar uma chave que encaixasse na fechadura. O mecanismo cedeu com um resmungo que soava a boas-vindas. O portão se abriu, revelando um corredor infinito pontilhado de teias de aranha que ondulavam na escuridão. — Deus do céu! — murmurou o corretor. Ninguém se atreveu a dar o primeiro passo, de modo que, mais uma vez, fui eu quem liderou a expedição. O secretário sustentava a lanterna no alto, observando tudo com ar penalizado. O corretor e o representante do banco trocaram um olhar indecifrável. Quando perceberam que eu os estava olhando, o bancário sorriu placidamente. — Depois de tirar o pó e com uma meia dúzia de ajustes, isso é um palácio — eu disse. — Palácio do Barba Azul — comentou o corretor. — Sejamos positivos — emendou o bancário. — A casa está desocupada há algum tempo e isso sempre acarreta algumas pequenas imperfeições.