O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 49

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Clavé baixou a voz e, murmurando como se temesse que as paredes o ouvissem, proferiu uma frase em tom fúnebre: — A casa é mal-assombrada. Fui visitá-la com o tabelião para a avaliação e posso garantir que a parte velha do cemitério de Montjuïc é mais alegre. Está vazia desde então. O lugar abriga lembranças ruins. Ninguém quer saber dela. — Essas lembranças não podem ser piores do que as minhas e, de qualquer forma, isso ajuda a diminuir o preço que pedem por ela, não é mesmo? — Mas há preços que não se pagam com dinheiro. — Posso vê-la? Visitei a casa da torre pela primeira vez numa manhã de março, em companhia do corretor, seu secretário e um funcionário do banco que detinha o título de propriedade. Ao que parecia, o imóvel tinha passado anos preso a um confuso labirinto de disputas legais, até reverter finalmente à entidade de crédito que tinha sido avalista do último proprietário. Se Clavé não mentia, ninguém tinha entrado ali nos últimos vinte anos, pelo menos.