O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 48

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA todos chamavam de Veneno, pois, apesar de seu jeito de mosca morta, era tão confiável quanto uma cascavel no cio. Cortesias à parte, tentava vê-los o mínimo possível. Era uma relação estritamente comercial e nenhuma das partes demonstrava muita vontade de alterar o protocolo estabelecido. Eu estava decidido a aproveitar aquela oportunidade e trabalhar duramente para provar a Vidal, e a mim mesmo, que estava lutando para merecer sua ajuda e sua confiança. Com dinheiro fresco nas mãos, resolvi abandonar a pensão de dona Carmen, em busca de horizontes mais confortáveis. Já fazia tempo que andava de olho num casarão de aspecto monumental da Rua Flassanders, a poucos passos do passeio do Born, diante do qual tinha passado durante anos, quando ia e voltava do jornal para a pensão. A propriedade, munida de uma torre que brotava da fachada lavrada com relevos e gárgulas, estava fechada havia anos, o portão trancado com correntes e cadeados carcomidos pela ferrugem. Apesar do aspecto fúnebre e descomunal, ou talvez justamente por isso, a idéia de morar ali despertava em mim aquela lux úria das idéias desaconselháveis. Em outras circunstâncias, teria aceito que um lugar daqueles excedia largamente os meus magros vencimentos, mas os longos anos de abandono e esquecimento me fizeram acalentar a esperança de que, se ninguém mais queria aquele lugar, talvez seus proprietários aceitassem minha oferta. Investigando no bairro, pude confirmar que a casa estava desabitada havia muitos anos e que a propriedade estava nas mãos de um corretor de imóveis chamado Vicenç Clavé, cujo escritório ficava na Rua Comercio, na frente do mercado. Clavé era um cavalheiro à antiga, que gostava de se vestir como as esculturas de governantes e pais da pátria que se viam na entrada do Parque de la Ciudadela e que, ao menor descuido, lançava-se em vôos de retórica que não perdoavam nem o divino, nem o humano. — De forma que o senhor é escritor. Pois veja bem, poderia lhe contar algumas histórias que dariam bons livros. — Não duvido. Por que não começa contando a história da casa da Rua Flassanders, número trinta? Clavé adotou um semblante de máscara grega. — A casa da torre? — Ela mesma. — Acredite em mim, meu rapaz, nem pense em morar lá. — E por que não?