O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 47
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Foi assim que, poucos meses antes de completar 20 anos, recebi e aceitei a oferta
para escrever melodramas baratos sob o pseudônimo de Ignatius B. Samson. O contrato
me obrigava a entregar duzentas páginas datilografadas por mês, repletas de intrigas,
assassinatos na alta sociedade, inúmeros horrores nos submundos do crime, amores
ilícitos entre cruéis fazendeiros de mandíbulas cerradas e senhorinhas de desejos
inconfessáveis e toda espécie de retorcidas sagas familiares que escondessem meandros
mais escabrosos e turvos do que as águas do porto. A série, que resolvi batizar de A
Cidade dos Malditos, seria publicada mensalmente, num volume encadernado, com capa
ilustrada em cores. Em troca, receberia mais dinheiro do que jamais pensei que poderia
ganhar fazendo algo que me inspirasse respeito e não teria nenhuma censura, senão a
obrigação de conquistar e manter o interesse dos leitores. Os termos da oferta me
obrigavam a escrever sob o anonimato de um pseudônimo extravagante, mas naquele
momento me pareceu um preço muito pequeno a pagar em troca de poder ganhar a vida
com o ofício que sempre sonhei desempenhar. Renunciaria à vaidade de ver meu nome
impresso em minha obra, mas não a mim mesmo e ao que eu era.
Meus editores eram um par de pitorescos cidadãos chamados Barrido e Escobillas.
Barrido, baixinho, rechonchudo e sempre envolto num sorriso oleoso e enigmático, era o
cérebro da operação. Vinha da indústria salsicheira e, embora não tivesse lido mais do que
três livros na vida, incluídos o catecismo e a lista telefônica, era dono de uma criatividade
única para fraudar livros de contabilidade, que adulterava em prol de seus investidores
com toques de ficção que mais pareciam obra dos autores que a editora, tal como previu
Vidal, exauria, explorava e, em última análise, jogava às feras quando os ventos sopravam
na direção contrária, coisa que cedo ou tarde acabava acontecendo.
Escobillas desempenhava o papel complementar. Alto, enxuto e com ar vagamente
ameaçador, tinha se formado no ramo das agências funerárias e, sob o horripilante
perfume que banhava suas vergonhas, sempre se adivinhava um vago odor de formol de
arrepiar os cabelos. Seu ofício era essencialmente o de um capataz, ameaçador, chicote
na mão e disposto a fazer o trabalho sujo para o qual Barrido, por sua índole mais risonha
e disposição não muito atlética, tinha menos aptidão. O ménage-à-trois se completava com
a secretária executiva, Herminia, que os seguia por toda parte como um cão fiel e que