O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 445

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — E veio ajustar contas? O patrão sorriu e negou lentamente. — Todos cometemos erros, Martín. Eu em primeiro lugar. Roubei de você o que mais queria. Não o fiz para feri-lo, mas por medo. Por medo de que ela o afastasse de mim, de nosso trabalho. Estava errado. Demorei um tempo para reconhecê-lo, mas se há alguma coisa de que disponho é de tempo. Observei-o detidamente. O patrão, assim como eu, não tinha envelhecido um único dia. — E por que veio então? O patrão deu de ombros. — Vim me despedir de você. Seu olhar se concentrou na menina que levava pela mão e que me olhava com curiosidade. — Como você se chama? — perguntei. — Chama-se Cristina — disse o patrão. Olhei-o nos olhos e ele fez que sim. Senti que meu sangue gelava nas veias. Podia intuir as feições, mas o olhar era inconfundível. — Cristina, cumprimente o meu amigo David. A partir de agora, você vai viver com ele. Troquei um olhar com o patrão. A menina estendeu a mão, como se tivesse ensaiado o gesto mil vezes, e sorriu envergonhada. Inclinei-me para ela e apertei sua mão. — Olá — murmurou. — Muito bem, Cristina — aprovou o patrão. — E o que mais? A menina concordou, recordando imediatamente. — Disseram-me que você é um fabricante de histórias e contos. — Dos melhores — acrescentou o patrão. — Pode fazer um para mim? Vacilei alguns segundos. A menina olhou para o patrão, inquieta. — Martín? — murmurou o patrão. — Claro — disse finalmente. — Escreverei para você todos os contos que quiser. A menina sorriu e, aproximando-se, beijou meu rosto. — Por que não vai até a praia e espera ali, enquanto me despeço de meu amigo, Cristina? — sugeriu o patrão. Cristina concordou e afastou-se lentamente, olhando para trás a cada passo e sorrindo. A meu lado, a voz do patrão sussurrou sua maldição eterna com doçura.