O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 444
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
sobre você foram esquecidas e que nestas Ruas tem tanta gente com a alma manchada
de sangue que as pessoas já não se atrevem nem a recordar ou, quando o fazem, mentem
a si mesmas porque não conseguem se olhar no espelho. Na livraria, continuamos a
vender seus livros, mas por baixo do pano, pois foram considerados imorais e o país tem
mais gente que quer destruir e queimar livros do que gente que quer lê-los. Os tempos que
correm não são bons e muitas vezes penso que os que estão por vir serão ainda piores.
Meu marido e os médicos pensam que me enganam, mas sei que me resta pouco
tempo. Sei que logo morrerei e que quando receber essa carta já não estarei aqui. Por isso
queria tanto escrever, porque queria que soubesse que não tenho medo, que minha única
tristeza é deixar um homem bom que me deu sua vida e o meu Daniel sozinhos num
mundo que a cada dia, acho eu, é mais como você dizia que era e menos como eu
acreditava que poderia ser.
Queria escrever para que soubesse que, apesar de tudo, eu vivi e estou agradecida
pelo tempo que passei por aqui, agradecida por tê-lo conhecido e por ter sido sua amiga.
Queria escrever porque gostaria que lembrasse de mim e que, algum dia, se amar alguém
como eu amo o meu pequeno Daniel, lhe falasse de mim e me fizesse viver para sempre
em suas palavras.
De quem lhe quer bem.
ISABELLA
Dias depois de receber aquela carta percebi que não estava sozinho na praia. Senti
sua presença na brisa da aurora, mas não quis nem pude voltar a fugir. Aconteceu numa
tarde, quando tinha me sentado para escrever diante da janela, esperando que o sol
mergulhasse no horizonte. Ouvi os passos sobre as tábuas de madeira do cais, levantei os
olhos e vi.
O patrão, vestido de branco, caminhava lentamente pelo cais levando pela mão uma
menina de cerca de 7, 8 anos. Reconheci a imagem instantaneamente: aquela velha
fotografia que Cristina tinha guardado a vida inteira sem saber de onde vinha. O patrão foi
até o final do cais e ajoelhou junto à menina. Ambos contemplaram o sol se derramando
sobre o oceano numa lâmina infinita de ouro candente. Saí da casa e segui pelo cais. Ao
chegar à extremidade, o patrão virou-se e me sorriu. Não havia ameaça nem rancor em
seu rosto, apenas uma sombra de melancolia.
— Senti sua falta, meu amigo — disse. — Senti falta de nossas conversas, até mesmo
de nossas pequenas discussões...