O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | 页面 443

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
envelhecido, tinha somente o meu nome, David, numa caligrafia que não esqueci apesar dos anos em que a perdera de vista.
Na carta, Sempere filho contava que Isabella e ele, depois de vários anos de noivado tumultuado e interrompido, tinham se casado no dia 18 de janeiro de 1935, na igreja de Santa Ana. A cerimônia, contra todos os prognósticos, tinha sido celebrada pelo nonagenário sacerdote que pronunciou o elogio fúnebre do Sr. Sempere e que, apesar de todas as tentativas e tramóias do arcebispado, recusava-se a morrer e continuava fazendo as coisas à sua maneira. Um ano mais tarde, dias antes de estourar a Guerra Civil, Isabella dera à luz um menino que recebeu o nome de Daniel Sempere. Os anos terríveis da guerra trouxeram todo tipo de penúrias e pouco depois do fim das hostilidades, naquela paz negra e maldita que haveria de envenenar a terra e o céu para sempre, Isabella contraiu cólera e morreu nos braços de seu marido no apartamento que compartilhavam, em cima da livraria. Foi enterrada em Montjuïc no dia do quarto aniversário de Daniel, sob uma chuva que durou dois dias e duas noites e quando o menino perguntou ao pai se o céu estava chorando, ele ficou sem voz para responder.
O envelope que tinha meu nome continha uma carta que Isabella escreveu para mim durante seus últimos dias de vida e que fez o marido jurar que faria chegar às minhas mãos, se algum dia soubesse de meu paradeiro. Querido David, Às vezes me parece que comecei a escrever essa carta faz muitos anos e que ainda não fui capaz de terminá-la. Muito tempo se passou desde que o vi pela última vez, muitas coisas terríveis e mesquinhas e, no entanto não há um dia sequer que não pense em você e não me pergunte por onde andará, se encontrou a paz, se está escrevendo, se virou um velho triste, se está apaixonado ou se ainda lembra de nós, da pequena livraria Sempere e Filhos e da pior assistente que já teve.
Temo que tenha partido sem ter me ensinada a escrever e não sei nem por onde começar a colocar em palavras tudo o que queria lhe dizer. Gostaria que soubesse que fui feliz, que graças a você encontrei um homem a quem amei e que me amou e que juntos tivemos um filho, Daniel, a quem sempre falo de você e que deu um sentido à minha vida que nem todos os livros do mundo conseguiriam começar a explicar.
Ninguém sabe, mas às vezes ainda volto àquele cais em que o vi partir para sempre e sento um momento, sozinha, à espera, como se acreditasse que você vai voltar. Se o fizesse, comprovaria que, apesar de tudo o que aconteceu, a livraria continua aberta, que o solar onde se erguia a casa da torre continua vazio, que todas as mentiras que disseram