O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 442
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
que o antigo proprietário deixou e uma máquina de escrever que gosto de pensar que
poderia ser a mesma com a qual escrevi centenas de páginas que nunca saberei se
alguém recorda. De minha janela, vejo um pequeno cais de madeira que penetra no mar e,
amarrado em sua extremidade, o bote que veio junto com a casa, apenas um esquife com
o qual às vezes saio navegando até onde despontam os recifes e a costa quase
desaparece de vista.
Não tinha voltado a escrever até chegar aqui. A primeira vez que enfiei uma página
em branco na máquina e pousei as mãos sobre o teclado tive medo de não ser capaz de
criar uma linha sequer. Escrevi as primeiras páginas dessa história durante minha primeira
noite na casa da praia. Escrevi até o amanhecer, como costumava fazer anos atrás, sem
saber ainda para quem estava escrevendo. Durante o dia, caminhava pela praia ou me
sentava no cais de madeira diante do casebre — uma passarela entre o céu e o mar —,
lendo os montes de jornais velhos que achei num dos armários. Suas páginas narravam
histórias da guerra, do mundo em chamas que tinha sonhado para o patrão.
Foi assim, lendo aquelas crônicas sobre a guerra na Espanha e depois na Europa e
no mundo, que decidi que não tinha mais nada a perder e que a única coisa que desejava
saber era se Isabella estava bem e se, porventura, ainda lembrava de mim. Ou talvez só
quisesse mesmo saber se estava viva. Escrevi uma carta endereçada à antiga livraria
Sempere e Filhos, na Rua Santa Ana de Barcelona, que levaria semanas, talvez meses,
para chegar, se é que o fizesse, a seu destino. Como remetente, assinei Mr. Rochester,
sabendo que, se a carta chegasse às suas mãos, Isabella saberia de quem se tratava e, se
quisesse, poderia abandoná-la fechada e continuar esquecida de mim para sempre.
Durante meses, continuei escrevendo essa história. Voltei a ver o rosto de meu pai e a
percorrer a redação de La Voz de la Industria, sonhando em rivalizar algum dia com o
grande Pedro Vidal. Voltei a ver Cristina Sagnier pela primeira vez e entrei de novo na
casa da torre, para mergulhar na loucura que tinha consumido Diego Marlasca. Escrevia
da meia-noite ao amanhecer sem descanso, sentindo-me vivo pela primeira vez desde que
tinha fugido da cidade.
A carta chegou num dia de junho. O carteiro tinha enfiado o envelope por baixo de
minha porta, enquanto eu dormia. Estava endereçada a Mr. Rochester e o remetente dizia
simplesmente Livraria Sempere e Filhos, Barcelona. Durante vários minutos fiquei dando
voltas pela casa, sem me atrever a abri-la. Finalmente, saí e sentei na beira do mar para
ler. A carta continha uma folha e um segundo envelope, menor. O segundo envelope,