O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 446

— Resolvi que ia lhe devolver o que mais quis e que lhe roubei. Decidi que, por uma vez, você vai caminhar em meu lugar e sentir o que sinto: não envelhecerá um só dia e verá Cristina crescer, irá se apaixonar por ela outra vez e vê-la envelhecer a seu lado e, algum dia, vai vê-la morrer em seus braços. Essa é minha bênção e minha vingança. Fechei os olhos, negando para mim mesmo.— Isso é impossível. Nunca será a mesma.— Isso vai depender unicamente de você, Martín. Entrego-a como uma página em branco. Essa história já não me pertence.
Ouvi seus passos afastando-se e, quando voltei a abrir os olhos, o patrão já não estava mais lá. Cristina, ao pé do cais, me observava solícita. Sorri e ela se aproximou lentamente, hesitando.— Onde está o senhor?— perguntou.— Foi embora. Cristina olhou ao redor, a praia infinita deserta em ambas as direções.— Para sempre?— Para sempre. Cristina sorriu e sentou ao meu lado.— Sonhei que éramos amigos— disse. Olhei para ela e aprovei.— E somos amigos. Sempre fomos. Riu e pegou minha mão. Apontei para a frente, para o sol que mergulhava no mar, que
Cristina contemplou com lágrimas nos olhos.— Recordarei, algum dia?— perguntou.— Algum dia. Soube então que dedicaria cada minuto que tivéssemos juntos a fazê-la feliz, a reparar o mal que lhe causei e a devolver o que não tinha sabido lhe dar. Essas páginas serão nossa memória, até que seu último suspiro se apague em meus braços e eu a acompanhe mar adentro, onde nasce a corrente, para mergulhar com ela para sempre e poder, enfim, fugir para um lugar onde nem o céu nem o inferno possam nos encontrar, jamais.