O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Página 439

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA O guardião retirou-se para as sombras, deixando-me a sós com Isabella. Minha antiga assistente e brilhante nova gerente de Sempere e Filhos examinava tudo num misto de assombro e apreensão. — Que espécie de lugar é esse? — perguntou. Peguei sua mão e, lentamente, guiei-a durante o resto do trajeto, até chegar à grande sala que hospedava a entrada. — Bem vinda ao Cemitério dos Livros Esquecidos, Isabella. Isabella levantou os olhos para a cúpula de cristal lá no alto e se perdeu naquela visão impossível de feixes de luz branca, perfurando uma babel de túneis, passarelas e pontes estendidas até as entranhas da catedral feita de livros. — Esse lugar é um mistério. Um santuário. Cada livro, cada tomo que está vendo aqui, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma daqueles que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro troca de mãos, cada vez que alguém desliza os olhos por suas páginas, seu espírito cresce e se fortalece. Neste lugar, os livros que ninguém mais lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando o dia em que chegarão às mãos de um novo leitor, de um novo espírito.. Mais tarde, deixei Isabella esperando na entrada do labirinto e penetrei sozinho nos túneis, carregando aquele manuscrito amaldiçoado que não tinha tido a coragem de destruir. Confiei que meus passos me guiariam até encontrar o lugar no qual ele ficaria enterrado para sempre. Dobrei mil esquinas antes de perceber que tinha me perdido. Então, quando tive certeza de que já tinha percorrido aquele mesmo trajeto pelo menos dez vezes, encontrei a entrada da pequena sala na qual tinha me defrontado com meu próprio reflexo naquele pequeno espelho em que o olhar do homem de negro estava sempre presente. Descobri um espaço entre as lombadas de couro negro e, sem titubear, enfiei a pasta do patrão. Estava disposto a abandonar aquele lugar quando me virei e me aproximei novamente da estante. Peguei o volume junto ao qual tinha confinado o manuscrito e abri. Bastou ler um par de frases para sentir de novo aquele riso obscuro às minhas costas. Devolvi o livro a seu lugar e peguei outro ao acaso, folheando-o rapidamente. Peguei outro e mais outro, e assim sucessivamente até que tinha examinado dezenas dos volumes que povoavam a sala e verificado que todos eles continham diferentes traçados das mesmas palavras, que as mesmas imagens os assombravam e que a mesma fábula se repetia, como uma dança numa galeria infinita de espelhos. Lux Aeterna.