O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 440

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Ao sair do labirinto, encontrei Isabella sentada num degrau com o livro que tinha escolhido nas mãos. Sentei a seu lado e Isabella apoiou a cabeça em meu ombro. — Obrigada por me trazer aqui — disse. Compreendi então que nunca mais voltaria a ver aquele lugar, que estava condenado a sonhar com ele e esculpir sua lembrança em minha memória, mas que podia me considerar um felizardo por ter percorrido seus corredores e roçado seus segredos. Fechei os olhos um instante e deixei que aquela imagem se gravasse para sempre em minha mente. Em seguida, sem me atrever a olhar de novo, peguei a mão de Isabella e encaminhei-me para a saída, deixando atrás de mim, para sempre, o Cemitério dos Livros Esquecidos. Isabella me acompanhou até o cais onde o navio que me levaria para longe daquela cidade e de tudo quanto tinha conhecido esperava por mim. — Como é mesmo o nome do capitão? — perguntou Isabella. — Caronte. — Não acho graça nenhuma. Abracei-a pela última vez e olhei nos seus olhos em silêncio. Pelo caminho, tínhamos feito um pacto de que não haveria despedidas, nem palavras solenes, sem promessas a cumprir. Quando os sinos da meia-noite repicaram em Santa María del Mar, subi a bordo. O capitão Olmo me deu as boas-vindas e se ofereceu para me levar até o camarote. Disse que preferia esperar. A tripulação voltou as amarras e lentamente o barco foi se separando do cais. Pus-me na popa, contemplando a cidade se afastar numa maré de luzes. Isabella ficou ali, imóvel, seu olhar no meu, até que o cais se perdeu na escuridão e a grande miragem de Barcelona mergulhou nas águas negras. Uma a uma, as luzes da cidade se extinguiram na distância e compreendi que já tinha começado a recordar.