O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 434

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA seus membros à armação da cadeira. Fui invadido por um frio que nunca tinha conhecido antes. — Salvador? — consegui articular. Avancei lentamente para ele. A silhueta permaneceu imóvel. Parei a um passo dela e estendi a mão lentamente. Meus dedos roçaram seu cabelo e pousaram no ombro. Quis virar o corpo, mas senti que alguma coisa cedia sob meus dedos. Um segundo depois de tocá-lo, ouvi como um sussurro e o cadáver se desfez em cinzas que se derramaram entre as roupas e os arames, elevando-se numa nuvem escura que ficou flutuando entre as paredes da prisão que o tinha ocultado durante tantos anos. Contemplei o véu de cinzas sobre minhas mãos e levei-as ao rosto, espalhando os restos da alma de Ricardo Salvador sobre minha pele. Quando abri os olhos, vi que Diego Marlasca, seu carcereiro, esperava no umbral da cela, trazendo o manuscrito do patrão na mão e fogo nos olhos. — Estive lendo enquanto esperava por você, Martín — disse Marlasca. — Uma obra- prima. O patrão saberá me recompensar quando lhe entregar isso em seu nome. Reconheço que nunca fui capaz de cumprir o acordo. Fiquei pelo meio do caminho. Mas me alegra ver que o patrão soube encontrar um substituto com mais talento que eu. — Afaste-se. — Sinto muito, Martín. Acredite, sinto muito. Tinha começado a gostar de você — disse extraindo o que parecia ser um cabo de marfim do bolso — Mas não posso deixá-lo sair deste quarto. É hora de ocupar o lugar do pobre Salvador. Pressionou o botão no cabo e uma folha de fio duplo brilhou na penumbra. Lançou-se sobre mim com um grito de raiva. A folha da navalha abriu meu rosto e teria me arrancado o olho esquerdo se eu não saltasse de lado. Caí de costas no chão coberto de pequenos ossos e poeira. Marlasca agarrou a navalha com as duas mãos e jogou-se em cima de mim, apoiando todo o seu peso na lâmina. A ponta da faca ficou a poucos centímetros do meu peito, enquanto minha mão direita agarrava Marlasca pela garganta. Virou o rosto para morder meu pulso e enfiei-lhe um soco na cara com a mão esquerda. Mal se mexeu. Estava tomado por uma raiva que ficava além da razão e da dor, e vi que não me deixaria sair com vida daquela cela. Investiu contra mim com uma força que parecia impossível. Senti a ponta da faca perfurando minha pele. Bati nele de novo, com todas as forças que me restavam. Meu punho estatelou-se contra seu rosto e senti que os ossos do nariz se quebravam. Seu sangue jorrou sobre meus dedos. Marlasca gritou de novo e enfiou a faca mais um centímetro em minha carne. Uma pontada de dor