O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 433

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA diante do último quarto do corredor. Não tinha percebido antes, pois a porta do quarto se abria para a esquerda e quando parei diante dela não entrei o suficiente para que ficasse ao alcance de meus olhos, mas agora, vindo no sentido contrário, pude ver claramente. Uma pomba branca com as asas abertas em cruz estava cravada sobre a porta. As gotas de sangue desciam pela madeira, frescas. Entrei no quarto. Olhei atrás da porta, mas não havia ninguém. O armário continuava afastado de lado. O hálito frio e úmido que saía do orifício na parede inundava o aposento. Deixei o lampião no chão e apoiei as mãos na massa quase pastosa que rodeava o buraco. Comecei a arranhar com as unhas e senti que se desfazia sob meus dedos. Olhei ao redor e encontrei um velho abridor de cartas na gaveta de uma das mesinhas empilhadas num canto. Cravei a ponta na massa e comecei a escavar. O gesso se desprendia com facilidade. A crosta não tinha mais de 3 centímetros. Do outro lado, uma folha de madeira. Uma porta. Procurei as bordas com o abridor e lentamente o contorno da porta foi se desenhando na parede. Nessa altura, já tinha esquecido aquela presença próxima que envenenava a casa e espreitava na sombra. A porta não tinha maçaneta, apenas um ferrolho enferrujado afogado no gesso amolecido por anos de umidade Enfiei o abridor de cartas e forcei inutilmente. Comecei a desferir pontapés, até que a massa que sustentava o ferrolho foi se desfazendo lentamente. Acabei de liberar o encaixe da fechadura com o abridor e, uma vez solto, um simples empurrão derrubou a porta. Uma lufada de ar putrefato emanou do interior, impregnando minhas roupas e minha pele. Peguei o lampião e entrei. O aposento era um retângulo de 5 ou 6 metros de profundidade. As paredes estavam cobertas de desenhos e inscrições que pareciam feitos com os dedos. Eram traços acastanhados e obscuros. Sangue seco. O chão estava coberto com algo que, inicialmente, pensei que fosse poeira, mas que, quando abaixei o lampião, vi que eram restos de pequenos ossos. Ossos de animais, esmigalhados numa maré de cinzas. Do teto caíam inúmeros objetos pendurados num cordão preto. Reconheci imagens religiosas de santos e virgens com o rosto queimado e os olhos arrancados, crucifixos presos com arame farpado e restos de brinquedos de latão e bonecas com olhos de vidro. A silhueta estava no fundo, quase invisível. Uma cadeira diante do canto. Sobre ela distinguia-se uma figura. Vestida de negro. Um homem. As mãos estavam presas nas costas por algemas. Um arame grosso prendia