PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
percorreu meu peito. Bati de novo, procurando a cavidade ocular com os dedos, mas Marlasca levantou o queixo e só pude enfiar as unhas em sua cara. Dessa vez, senti seus dentes em meus dedos.
Enfiei o punho em sua boca, partindo-lhe os lábios e arrancando vários dentes. Ouvi que urrava e sua pressão vacilou por um instante. Empurrei-o de lado e ele caiu no chão, o rosto transformado numa máscara de sangue trêmula de dor. Afastei-me, rezando para que não se levantasse de novo. Um segundo depois, arrastou-se para a navalha e começou a levantar.
Pegou a faca e jogou-se em cima de mim com um berro ensurdecedor. Dessa vez não me pegou de surpresa. Peguei o lampião pela alça e atirei com todas as minhas forças, quando passou por mim. O lampião estatelou-se em seu rosto e o óleo derramou em seus olhos, lábios, garganta e peito. As chamas o lamberam imediatamente. Em apenas dois segundos, o fogo estendeu um manto que se espalhou por seu corpo. Seu cabelo evaporou instantaneamente. Vi seu olhar de ódio através das chamas que devoravam suas pálpebras. Peguei o manuscrito e saí de lá. Marlasca ainda segurava a navalha na mão quando tentou me seguir para fora daquele quarto amaldiçoado e caiu de cara sobre a pilha de roupas velhas que arderam no mesmo instante. As labaredas saltaram para a madeira seca do armário e para os móveis empilhados contra a parede.
Fugi para o corredor e ainda pude vê-lo caminhar às minhas costas com os braços estendidos, tentando me alcançar. Corri até a porta, mas antes de sair, parei para contemplar Diego Marlasca consumindo-se entre as chamas e batendo com ódio nas paredes que se incendiavam à sua passagem. O fogo se espalhou pelos livros esparramados pela galeria e chegou aos cortinados. As labaredas cobriram o teto como serpentes de fogo, lambendo as molduras das portas e janelas, arrastando-se pelas escadas do escritório. A última coisa que lembro é a imagem daquele homem maldito caindo de joelhos no final do corredor, as esperanças vãs de sua loucura perdidas e seu corpo reduzido a uma tocha de carne e ódio engolida pela tormenta de fogo que se espalhava sem remédio pelo interior da casa da torre. Em seguida, abri a porta e corri escada abaixo.
Alguns habitantes das redondezas tinham se reunido na Rua, quando viram as primeiras chamas despontarem nas janelas da torre. Ninguém reparou em mim enquanto me afastava pela Rua. Em pouco tempo, ouvi os vidros do estúdio explodirem e virei para ver o fogo rugir e incendiar a rosa dos ventos em forma de dragão. Pouco depois, afasteime até o passeio do Born caminhando contra uma maré de vizinhos que chegavam com os