O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 430

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
A torre do cais do porto erguia-se à nossa frente, como uma cúpula de aço e cabos arrancada de uma catedral mecânica. A cabine penetrou na cúpula da torre e parou na plataforma. Quando a portinhola se abriu, os quatro sacerdotes saíram disparados. Grandes, pistola em punho, indicou que me dirigisse para o fundo da cabine. Um dos padres, ao descer, olhou-me com preocupação.
— Não se preocupe, meu jovem, vamos avisar a polícia— disse antes que a porta se fechasse novamente.— Não hesitem em fazê-lo— replicou Grandes. Uma vez travada a porta, a cabine continuou seu trajeto. Emergimos da torre do cais e iniciamos o último trecho da travessia. Grandes aproximou-se da janela e contemplou a vista da cidade, uma miragem de luzes e névoas, catedrais e palácios, becos e grandes avenidas entrelaçadas num labirinto de sombras.
— A cidade dos malditos— disse Grandes.— Quanto mais de longe se vê, mais bonita parece.— Esse é o meu epitáfio?— Não vou matá-lo, Martín. Não mato ninguém. Você vai nos fazer esse favor. A mim e a você mesmo. Sabe que tenho razão.
Sem mais, o inspetor descarregou três tiros no mecanismo de fechamento da comporta que, em seguida, abriu com um pontapé. A portinhola ficou pendurada no ar, uma lufada de vento úmido inundando a cabine.
— Não vai sentir nada, Martín. Pode acreditar em mim. O golpe não leva nem um décimo de segundo. Instantâneo. E depois, a paz.
Olhei para a comporta aberta. Uma queda de 70 metros no vazio se abria diante de mim. Olhei para a torre de San Sebástian e calculei que restavam alguns minutos até chegarmos lá. Grandes leu meu pensamento.— Em um minuto, tudo estará acabado, Martín. Deveria me agradecer.— Acredita realmente que matei todas essas pessoas, inspetor? Grandes ergueu o revólver e apontou para meu coração.— Não sei, nem me importa.— Pensei que éramos amigos. Grandes sorriu e negou em silêncio.— Você não tem amigos, Martín. Ouvi o estrondo do disparo e senti um impacto no peito, como se um martelo industrial tivesse golpeado minhas costelas. Caí de costas, sem fôlego, um espasmo de dor se