O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 431
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
espalhando em meu corpo como gasolina. Grandes tinha me agarrado pelos pés e me
puxava para a portinhola. O alto da torre de San Sebástian apareceu do outro lado entre
véus de nuvens. Grandes cruzou por cima de mim e ajoelhou às minhas costas. Empurrou-
me pelos ombros para a porta. Senti o vento úmido nas pernas. Grandes me deu outro
empurrão e vi que minha cintura tinha passado da plataforma da cabine. O puxão da
gravidade foi instantâneo. Estava começando a cair.
Estiquei os braços para o policial e cravei meus dedos em seu pescoço. Com o lastro
do peso de meu corpo, o inspetor ficou travado na comporta. Apertei com todas as forças,
apertando sua traquéia e esmagando as artérias do pescoço. Tentou se livrar do meu
aperto com uma das mãos, enquanto a outra tateava em busca da arma. Seus dedos
encontraram a culatra da pistola e deslizaram pelo gatilho. O disparo roçou minha face e
explodiu contra a borda da porta. A bala ricocheteou para o interior da cabine e atravessou
a palma de sua mão num furo limpo. Enfiei as unhas em seu pescoço, sentindo que a pele
cedia. Grandes emitiu um gemido. Puxei com força e subi de novo até ficar com mais de
meio corpo dentro da cabine. Assim que consegui me segurar nas paredes de metal, soltei
Grandes e consegui me mover para o lado.
Apalpei meu peito e encontrei o orifício que o revólver do inspetor tinha feito. Abri o
casaco e extraí o exemplar de Os Passos do Céu. A bala tinha atravessado a capa, as
quase 400 páginas e despontava com a ponta de um dedo de prata na quarta capa. A meu
lado, Grandes se contorcia no chão, agarrando o pescoço com desespero. Tinha o rosto
arroxeado e as veias da testa e do rosto pulsavam como cabos tensos. Fitou-me com um
olhar de súplica. Uma teia de aranha de vasos quebrados se espalhava por seus olhos e
compreendi que tinha esmagado sua traqueia com as mãos e que estava se asfixiando
sem mais remédio.
Fiquei contemplando enquanto se sacudia no chão em sua lenta agonia. Puxei a ponta
do envelope branco que despontava de seu bolso. Abri e contei 15 mil pesetas. O preço de
minha vida. Guardei o envelope. Grandes se arrastava pelo chão na direção da arma.
Levantei e afastei-a com um pontapé. Agarrou meu tornozelo implorando misericórdia.
— Onde está Marlasca? — perguntei.
Sua garganta emitiu um gemido surdo. Pousei meus olhos nos seus e compreendi que
estava rindo. A cabine já tinha entrado no interior da torre de San Sebástian, quando o
empurrei pela portinhola e vi seu corpo mergulhar quase 80 metros através de um labirinto
de trilhos, cabos, rodas dentadas e barras de aço que o despedaçaram pelo caminho.