O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 424
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Nunca é suficiente. Quando desembarcar em Marselha, Olmo vai acompanhá-lo a
um banco, onde lhe entregará 50 mil francos.
— Dom Pedro...
— Ouça-me. Esses dois homens que Grandes diz que você matou...
— Marcos e Castelo. Acho que trabalhavam para seu pai, dom Pedro.
Vidal negou.
— Nem o meu pai, nem seus advogados tratam com gente dos escalões
intermediários, David. Como acha que esses dois sabiam exatamente onde encontrá-lo
trinta minutos depois de você ter deixado a delegacia?
A fria certeza desabou sobre minha cabeça, transparente.
— Por meu amigo, o inspetor Victor Grandes.
Vidal aprovou.
— Grandes deixou que saísse porque não queria sujar as mãos dentro da delegacia.
Assim que saiu, seus dois homens seguiram sua pista. A sua era uma morte telegrafada.
Suspeito de assassinato consegue fugir, mas morre ao resistir à voz de prisão.
— Como nos velhos tempos da editoria de polícia — disse.
— Tem coisas que não mudam nunca, David. Deveria saber disso melhor que
ninguém.
Abriu o armário e estendeu-me um casaco novinho em folha. Aceitei e guardei o livro
no bolso interno. Vidal sorriu.
— Por uma vez na vida, posso dizer que está bem-vestido.
— Pois ficaria melhor no senhor, dom Pedro.
— Ora, isso é evidente.
— Dom Pedro, há muitas coisas que...
— Agora não tem mais importância, David. Não me deve nenhuma explicação.
— Devo-lhe muito mais do que uma explicação...
— Então, fale-me dela.
Vidal olhava para mim com olhos desesperados, suplicando que mentisse para ele.
Sentamos no salão, diante das janelas de onde ele dominava Barcelona inteira e menti
com toda a minha alma. Disse que Cristina tinha alugado uma pequena cobertura na rue
de Soufflot sob o nome de madame Vidal e que tinha dito que esperaria por mim todo o
dia, no meio da tarde, diante do chafariz dos jardins de Luxemburgo. Disse que falava
constantemente dele, que nunca o esqueceria e que eu sabia que, por mais tempo que