PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
passasse a seu lado, nunca poderia preencher a ausência que ele tinha deixado. Dom Pedro aprovava, o olhar perdido na distância.
— Tem que me prometer que vai cuidar dela, David. Que nunca a abandonará. Que aconteça o que acontecer, estará sempre a seu lado.— Eu prometo, dom Pedro. Na luz pálida do entardecer, não pude deixar de ver em Vidal apenas um homem velho e vencido, doente de recordações e remorsos, um homem que nunca tinha acreditado e a quem só restava agora o bálsamo da credulidade.— Gostaria de ter sido um amigo melhor para você, David.— Mas foi o melhor dos amigos, dom Pedro. Foi muito mais que isso. Vidal estendeu o braço e pegou minha mão. Estava tremendo.— Grandes me falou desse homem, esse que você chama de patrão... Diz que lhe deve algo e que acredita que o único modo de pagar a dívida é entregando-lhe uma alma pura...— Isso são bobagens, dom Pedro. Não dê atenção a elas. Vidal sorriu.— Se pudesse trocar de lugar com seu pai, David, eu o faria.— Eu sei. Levantou e contemplou o entardecer, abatendo-se sobre a cidade.— Deveria pegar a estrada— disse.— Vá até a garagem e escolha um carro. O que quiser. Vou ver se tenho algum dinheiro vivo.
Concordei e peguei o casaco. Saí para o jardim e fui até a garagem da Villa Helius, que abrigava dois automóveis reluzentes como carruagens reais. Escolhi o menor e mais discreto, uma Hispano-Suiza preta que parecia não ter saído de lá mais que duas ou três vezes e ainda tinha cheiro de nova. Sentei ao volante e liguei o carro. Tirei-o da garagem e esperei no pátio. Um minuto se passou e, ao ver que dom Pedro não aparecia, Voltei a entrar na casa para despedir-me dele e dizer que não se preocupasse com dinheiro que eu daria um jeito. Ao atravessar o hall de entrada, lembrei que tinha deixado minha arma ali, sobre a mesinha. Quando fui pegá-la, não estava mais lá.— Dom Pedro? A porta que dava para a sala estava encostada. Cheguei até a entrada e o vi bem no centro da sala. Levou o revólver de meu pai ao peito e colocou o cano em cima do coração. Corri para ele, mas o estrondo do disparo afogou meus gritos. A arma caiu de suas mãos. Seu corpo caiu contra a parede e deslizou lentamente até o chão, deixando um