O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 423

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Um pouco largo de ombros, mas vai ter que se conformar — disse, estendendo-me as abotoaduras de safira. — O que disse o inspetor? — Tudo. — E acreditou? — O que importa se eu acredito ou não? — Para mim, importa. Vidal sentou numa banqueta que repousava contra uma parede coberta de espelhos do chão ao teto. — Diga que sabe onde está Cristina — disse. Concordei. — Está viva? Olhei-o nos olhos e, muito lentamente, fiz que sim. Vidal sorriu debilmente, deixando escapar um gemido que brotava do fundo de seu ser. Sentei junto dele e o abracei. — Perdoe-me, dom Pedro, perdoe-me... Mais tarde, quando o sol começava a cair sobre o horizonte, dom Pedro recolheu minhas roupas velhas e lançou-as no fogo. Antes de abandonar o casaco às chamas, tirou o exemplar de Os Passos do Céu e estendeu-o para mim. — Dos dois livros que escreveu no ano passado, este era o bom — disse. Observei enquanto ele remexia minhas roupas ardendo no fogo. — Quando percebeu? Vidal deu de ombros. — É difícil enganar para sempre até mesmo um bobo vaidoso, David. Não consegui distinguir se havia rancor em sua voz ou apenas tristeza. — Fiz isso porque pensei que estava ajudando, dom Pedro. — Sei disso. Sorriu sem amargor. — Perdoe-me — murmurei. — Precisa sair desta cidade. Há um cargueiro ancorado no cais de San Sebastián que zarpa à meia-noite. Está tudo acertado. Pergunte pelo capitão Olmo, ele estará à sua espera. Pegue um dos carros da garagem. Pode deixá-lo no cais. Pep o irá pegar amanhã de manhã. Não fale com ninguém. Não volte para casa. Vai precisar de dinheiro. — Tenho dinheiro suficiente — menti.