O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 421

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA De repente, ouvi passos e vozes entrando no quarto. Senti que tiravam minha roupa e consegui ver as dezenas de cortes que cobriam meu corpo como uma hera sanguinolenta. Senti as pinças remexendo nas feridas, extraindo farpas de vidro que arrancavam retalhos de carne à sua passagem. Senti o calor dos desinfetantes e as pontadas da agulha com que o doutor costurava as feridas. Já não sentia dor, apenas cansaço. Uma vez sedado, costurado e remendado como se fosse uma marionete quebrada, o médico e Vidal me cobriram e colocaram minha cabeça no travesseiro mais suave e fofo que tinha conhecido em toda minha vida. Abri os olhos e encontrei o rosto do médico, um cavalheiro de porte aristocrático e sorriso tranqüilizador. Segurava uma seringa nas mãos. — Teve sorte, meu jovem — disse ao mesmo tempo em que enfiava a agulha em meu braço. — O que é isso? — murmurei. O rosto de Vidal despontou ao lado do médico. — Vai ajudá-lo a descansar. Uma nuvem de frio se espalhou por meu braço e cobriu meu peito. Caí num poço de veludo negro enquanto Vidal e o médico me observavam do alto. O mundo foi se fechando até ficar reduzido a uma gota de luz que se evaporou em minhas mãos. Mergulhei numa paz morna, química e infinita, da qual nunca desejaria escapar. Recordo um mundo de águas negras sob o céu. A luz da lua roçava a abóbada gelada lá no alto e se decompunha em mil facetas poeirentas que ondulavam na corrente que me arrastava. O manto branco que a envolvia balançava lentamente, a silhueta de seu corpo visível contra a luz. Cristina estendia a mão para mim, e eu lutava contra aquela corrente fria e espessa. Quando faltavam apenas alguns milímetros entre minha mão e a sua, uma nuvem de escuridão desdobrava suas asas atrás dela e a envolvia numa explosão de tinta. Tentáculos de luz negra rodeavam seus braços, sua garganta e seu rosto para arrastá-la com força para a escuridão.