O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 420

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 21 A duras penas, consegui me arrastar através dos becos do Raval até o Paralelo, onde uma fileira de táxis se estendia na porta do teatro Apolo. Enfiei-me no primeiro que pude. Ao ouvir a porta, o motorista virou e ao me ver fez uma careta desanimada. Deixei-me cair no banco traseiro, ignorando seus protestos. — Ouça, não vai morrer aí atrás, vai? — Quanto mais cedo me levar para onde quero ir, mais cedo se verá livre de mim. O motorista murmurou uma praga e acionou o motor. — E para onde quer ir? Não sei, pensei. — Vá indo e já vou lhe dizer. — Indo para onde? — Pedralbes. * * * Vinte minutos mais tarde avistei as luzes de Villa Helius na colina. Indiquei-as ao motorista, que não via a hora de desembaraçar-se de mim. Deixou-me na porta do casarão e quase esqueceu de cobrar a corrida. Arrastei-me até o portão e apertei a campainha. Caí sobre as escadarias e apoiei a cabeça na parede. Ouvi passos que se aproximavam e em algum momento tive a impressão de que a porta se abria e uma voz pronunciava meu nome. Senti uma mão na testa e reconheci os olhos de Vidal. — Perdoe, dom Pedro — supliquei. — Não tinha para onde ir... Ouvi que erguia a voz e em poucos segundos senti várias mãos que seguravam meus braços e pernas e levantavam. Quando voltei a abrir os olhos estava no quarto de dom Pedro, estendido na mesma cama que ele tinha partilhado com Cristina durante os poucos meses de duração de seu casamento. Suspirei. Vidal me observava ao pé do leito. — Não diga nada agora — disse. — O médico já está a caminho. — Não acredite neles, dom Pedro — gemi. — Não acredite. Vidal fez que sim apertando os lábios. — Claro que não. Dom Pedro pegou um cobertor e me cobriu. — Vou descer para esperar o médico — disse. — Descanse.