O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 419

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Puxei o gatilho do revólver. Os passos de Marcos pararam. Um roçar sobre os tacos do chão. Estava do outro lado da parede. Sabia perfeitamente que estava dentro daquele quarto, sem nenhuma outra saída senão atravessar na frente dele. Lentamente, vi sua silhueta amoldando-se às sombras da entrada. Seu perfil se fundiu na penumbra líquida, e o brilho de seus olhos era o único rastro de sua presença. Estava a apenas 4 metros de mim. Comecei a deslizar contra a parede até chegar ao chão, dobrando os joelhos. As pernas de Marcos se aproximavam por trás das pernas dos manequins.— Sei que está aqui, Martín. Deixe de criancice. Parou, imóvel. Vi quando se ajoelhou e apalpou com os dedos o rastro de sangue que eu tinha deixado. Levou um dedo aos lábios. Imaginei que sorria.— Está sangrando muito, Martín. Precisa de um médico. Saia e vou acompanhá-lo a um pronto-socorro. Fiquei em silêncio. Marcos parou diante de uma mesa e pegou um objeto brilhante que repousava entre rolos de tela. Eram grandes tesouras de costura.— Você mesmo, Martín. Ouvi o som produzido pelas lâminas da tesoura ao abrir e fechar em suas mãos. Uma pontada de dor alfinetou meu braço e mordi os lábios para não gemer. Marcos virou o rosto para o local onde me encontrava.
— Falando de sangue, vai gostar de saber que pegamos a sua putinha, a tal de Isabella, e que antes de começar com você, vamos passar um tempinho com ela...
Levantei a arma e apontei para sua cara. O brilho do metal delatou-me. Marcos saltou em cima de mim, derrubando os manequins e esquivando-se do disparo. Senti seu peso sobre meu corpo e seu hálito em minha cara. As lâminas da tesoura fecharam com força a um centímetro de meu olho esquerdo. Dei com a testa em seu rosto com toda a força que ainda me restava e ele caiu de lado. Levantei a arma e mirei seu rosto. Marcos, o lábio partido em dois, levantou e cravou os olhos em mim.— Não tem colhões— murmurou. Pousou a mão sobre o cano e riu para mim. Apertei o gatilho. A bala arrancou a mão dele, projetando o braço para trás como se tivesse recebido uma martelada. Marcos caiu de costas contra o chão, segurando a munheca mutilada e fumegante, enquanto seu rosto salpicado de queimaduras de pólvora mergulhava numa careta de dor que urrava sem voz. Levantei e o deixei lá, sangrando sobre uma poça de sua própria urina.