O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 418
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
de vidro, afiado como uma adaga, despontava logo acima do cotovelo. Agarrei-o com a
mão e puxei. O frio deu lugar a uma labareda de dor que me fez cair de joelhos no chão.
Dali, pude ver que Castelo tinha começado a descer pelo encanamento e me observava no
mesmo lugar de onde eu tinha pulado. Antes que pudesse sacar a arma, saltou para a
janela. Vi suas mãos agarrarem a moldura e, num ato reflexo, fechei o batente da janela
com todas as minhas forças, apoiando todo o peso de meu corpo. Ouvi os ossos de seus
dedos se quebrarem com um estalido seco e Castelo urrar de dor. Tirei o revólver e
apontei para seu rosto, mas ele já tinha começado a sentir que as mãos se soltavam da
moldura. Um segundo de terror em seus olhos e ele despencou pelo respiradouro, seu
corpo batendo nas paredes e deixando um rastro de sangue nas manchas de luz que se
projetavam das janelas dos andares de baixo.
Arrastei-me pelo corredor na direção da porta. A ferida no braço latejava com força e
percebi que também tinha vários cortes nas pernas. Continuei avançando. De ambos os
lados, abriam-se quartos na penumbra cheios de máquinas de costura, carretéis de linha e
mesas com grandes rolos de tecido. Cheguei à porta e coloquei a mão na maçaneta. Um
décimo de segundo depois, senti que girava sob meus dedos. Soltei-a. Marcos estava
tentando forçar a porta. Retrocedi alguns passos. Um estrondo ensurdecedor sacudiu a
porta e parte do ferrolho saiu, projetado numa nuvem de faíscas e fumaça azulada. Marcos
estava despedaçando a fechadura a tiros. Refugiei-me no primeiro quarto, repleto de
silhuetas imóveis em que faltavam braços ou pernas. Eram manequins de vitrine,
apertados uns contra os outros. Deslizei entre os torsos que reluziam na penumbra. Ouvi
um segundo disparo. A porta se abriu de um só golpe. A luz do patamar, amarelada e
presa num clarão de pólvora, penetrou no apartamento. O corpo de Marcos desenhou um
perfil de arestas no facho de luz. Seus passos pesados aproximaram-se pelo corredor.
Ouvi quando encostou a porta. Grudei na parede, escondido atrás dos manequins, o
revólver nas mãos trêmulas.
— Saia, Martín — disse Marcos com calma, avançando lentamente. — Não vou lhe
fazer mal. Tenho ordens de Grandes para levá-lo à delegacia. Encontramos aquele
homem, Marlasca. Ele confessou tudo. Você está livre. Não vá fazer nenhuma bobagem
agora. Saia e vamos conversar na Chefatura.
Vi quando cruzou o umbral da porta do quarto e passou ao largo.
— Martín, ouça. Grandes está a caminho. Podemos esclarecer tudo isso sem
necessidade de complicar mais as coisas.