O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 415

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Tinha a voz áspera e alquebrada. Foi assaltada por uma tosse seca que arrancou de seu peito um som desgarrado e, um segundo depois, um líquido escuro aflorou entre seus dentes. Irene Sabino olhava para mim agarrando-se a seu último sopro de vida. Pegou minha mão e apertou com força. — Você foi amaldiçoado, como ele. — E o que posso fazer? Fez lentamente que não com a cabeça. Um novo arranco de tosse sacudiu seu peito. Os capilares de seus olhos se rompiam e uma rede de linhas sangrentas avançava para as pupilas. — Onde está Ricardo Salvador? No túmulo de Marlasca, no mausoléu? Irene Sabino negou. Uma palavra muda se formou em seus lábios: Jacó. — Onde está Salvador, então? — Ele sabe onde está. Pode vê-lo. Virá atrás de você. Achei que estava começando a delirar. A pressão de sua mão foi perdendo força. — Eu o amava — disse. — Era um bom homem. Um bom homem. Ele o transformou. Era um bom homem... Um som de carne destroçada emergiu de seus lábios e seu corpo se retesou num espasmo muscular. Irene Sabino morreu com os olhos cravados nos meus, levando para sempre o segredo de Diego Marlasca. Agora só restava eu. Cobri seu rosto com o lençol e suspirei. Na entrada da porta, o hóspede se benzeu. Olhei ao redor, tentando encontrar algo que pudesse me ajudar, algum indício de qual deveria ser o meu próximo passo. Irene Sabino tinha passado seus últimos dias em uma cela de 4 metros de comprimento e 2 de largura. Não havia janelas. O catre de metal em que seu corpo jazia, um armário do outro lado e uma mesinha contra a parede eram todo o mobiliário. Uma maleta despontava sob o catre, junto de um urinol e de uma caixa de chapéu. Sobre a mesa havia um prato com migalhas de pão, um jarro d'água e uma pilha de cartões que pareciam postais, mas na verdade eram santinhos e lembranças de funerais e enterros. Envolto num pano branco havia algo que parecia ser um livro. Desembrulhei e encontrei o exemplar de Os Passos do Céu que tinha dedicado ao Sr. Sempere. A compaixão que a agonia daquela mulher tinha despertado em mim evaporou- se na mesma hora. Aquela infeliz tinha matado meu bom amigo para roubar aquela merda de livro. Lembrei então do que Sempere tinha me dito da primeira vez em que entrei em sua livraria: que cada livro tem uma alma, a alma de quem o tinha escrito e a alma de