O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 416
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
quem o tinha lido e sonhado com ele. Sempere tinha morrido acreditando naquelas
palavras e compreendi que Irene Sabino, à sua maneira, também acreditava nelas.
Passei as páginas, relendo a dedicatória. Encontrei a primeira marca na página sete.
Uma linha amarronzada borrava as palavras, desenhando uma estrela de seis pontas,
idêntica à que ela tinha gravado em meu peito com o fio de uma navalha semanas antes.
Compreendi que o desenho tinha sido feito com sangue. Fui virando as páginas e
encontrando novos desenhos. Lábios. Uma mão. Olhos. Sempere tinha sacrificado sua
vida por um mísero e ridículo feitiço de barraca de feira.
Guardei o livro no bolso interno do casaco e ajoelhei-me junto ao leito. Peguei a
maleta e esvaziei seu conteúdo no chão. Não havia nada além de roupas e sapatos
velhos. Abri a caixa de chapéu e encontrei um estojo de couro contendo a navalha de
barbear com que Irene Sabino tinha feito as marcas que carregava no peito. De repente,
percebi uma sombra estendendo-se no chão e virei bruscamente, apontando o revólver. O
hóspede de talhe espigado olhou-me com certa surpresa.
— Parece que tem companhia — disse sucintamente.
Saí até o corredor e caminhei na direção da entrada. Debrucei-me na escada e ouvi os
passos pesados que subiam os degraus. Um rosto perfilou-se no vão, olhando para cima,
e deparei com os olhos do sargento Marcos dois andares abaixo. Retirou-se e os passos
se aceleraram. Não estava sozinho. Fechei a porta e me apoiei nela, tentando pensar. Meu
cúmplice me observava, calmo mas na expectativa.
— Tem alguma saída além dessa? — perguntei.
Negou.
— Saída para o terraço?
Indicou a porta que tinha acabado de fechar. Três segundos mais tarde senti o
impacto dos corpos de Marcos e Castelo tentando derrubá-la. Afastei-me, retrocedendo
pelo corredor com a arma apontada para a porta.
— Qualquer coisa, estarei em meu quarto — disse o inquilino. — Foi um prazer.
— Igualmente.
Fixei os olhos na porta, que balançava com força. A madeira envelhecida começou a
rachar ao redor das dobradiças e da fechadura. Fui para o fundo do corredor e abri a
janela do respiradouro. Um túnel vertical de aproximadamente um metro por um metro e
meio de largura mergulhava nas sombras. Cerca de 3 metros acima da janela, entrevia-se
a borda do terraço. Do outro lado do vão, havia um cano preso à parede por argolas
carcomidas pela ferrugem. A umidade aflorava, salpicando sua superfície de lágrimas