PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
a atmosfera. O homem que tinha aberto a porta tinha ficado na entrada, olhando para mim, desconcertado. Supôs que se tratava de um hóspede.— Qual é o quarto? Olhou-me em silêncio, impenetrável. Tirei o revólver e mostrei a ele. O homem, sem perder a serenidade, indicou a última porta do corredor junto ao vão do respiradouro. Fui para lá e, quando descobri que a porta estava fechada, comecei a tentar forçar a fechadura. O resto dos hóspedes tinha aparecido no corredor, um coro de almas esquecidas que não pareciam ter visto a luz do sol nos últimos anos. Lembrei dos meus dias de miséria na pensão de dona Carmen e pensei que meu antigo domicilio parecia o novo hotel Ritz comparado com aquele miserável purgatório, um dos muitos na colmeia do Raval.— Voltem para seus quartos— disse. Ninguém deu mostras de ter ouvido. Levantei a mão mostrando a arma. Ato contínuo, todos se enfiaram em seus quartos como roedores assustados, à exceção do cavalheiro da triste e espigada figura. Concentrei minha atenção de novo na porta.
— Está trancada por dentro— explicou o hóspede.— Ficou trancada aí dentro a tarde inteira.
Um cheiro que me fez pensar em amêndoas amargas se insinuava por baixo da porta. Bati com o punho várias vezes, sem obter resposta.
— A caseira tem uma chave mestra— ofereceu o hóspede.— Se quiser esperar... Acho que não vai demorar muito.
Como única resposta, dei um passo até o outro lado do corredor e investi com toda a força contra a porta. A fechadura cedeu na segunda tentativa. Assim que entrei no quarto, fui assaltado por um fedor acre e nauseabundo.— Meu Deus— murmurou o hóspede às minhas costas. A antiga estrela do Paralelo jazia sobre um catre, pálida e coberta de suor. Tinha os lábios negros e quando me viu, sorriu. Suas mãos agarravam com força um frasco de veneno. Tinha bebido até a última gota. O bafo de seu hálito de sangue e bile impregnava o quarto. O hóspede tapou o nariz e a boca com a mão e recuou para o corredor. Contemplei Irene Sabino contorcendo-se enquanto o veneno a corroía por dentro. A morte estava fazendo seu trabalho com toda a calma.— Onde está Marlasca? Olhou-me por entre as lágrimas da agonia.— Já não precisava mais de mim— disse.— Nunca me amou.