O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 413
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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As Ruas do Raval eram túneis de sombra pontilhados de lampiões vacilantes que mal
conseguiam arranhar a escuridão. Precisei de um pouco mais do que os trinta minutos que
o inspetor Grandes tinha me concedido para descobrir que havia duas lavanderias na Rua
Cadena. A primeira, apenas uma cova no fundo de uma escadaria reluzente de vapor, só
empregava crianças com as mãos roxas de tinta e os olhos amarelados. A segunda, um
depósito de sebo e fedor de solvente, do qual era difícil acreditar que pudesse sair alguma
coisa limpa, estava sob o comando de uma mulherona que, à vista de algumas moedas,
não perdeu tempo em admitir que Maria Antonia Sanahuja trabalhava ali seis tardes por
semana.
— O que foi que ela fez agora? — perguntou a matrona.
— Recebeu uma herança. Diga onde posso encontrá-la e, no mínimo, poderá ganhar
alguma coisinha.
A matrona riu e seus olhos brilharam de cobiça.
— Que eu saiba vive na pensão Santa Lucía, na Rua Marquês de Barberá. E quanto foi
que herdou?
Joguei algumas moedas no balcão e saí daquele poço imundo sem me dar ao trabalho
de responder.
A pensão onde Irene Sabino vivia definhava num edifício sombrio que parecia feito de
ossos desenterrados e lápides roubadas. As placas das caixas de correio da portaria
estavam cobertas de ferrugem. Nos dois primeiros andares, não havia nome algum. O
terceiro andar hospedava um ateliê de costura e confecção com o retumbante nome de A
Têxtil Mediterrânea. O quarto e último andar era ocupado pela pensão Santa Lucía. Uma
escada que dava passagem a apenas uma pessoa subia na penumbra, o hálito dos
esgotos infiltrando-se nas paredes e roendo a pintura como ácido. Subi os quatro lances
até chegar a um patamar inclinado que dava para uma única porta. Bati com o punho e
logo apareceu um homem alto e magro como um pesadelo de El Greco.
— Estou procurando por Maria Antonia Sanahuja — disse.
— É o médico? — perguntou.
Empurrei-o de lado e entrei. O apartamento não era mais do que um amontoado de
quartos estreitos e escuros que se apinhavam dos dois lados de um corredor que morria
numa janela diante de um respiradouro. O fedor que subia dos encanamentos impregnava