O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 413

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 20 As Ruas do Raval eram túneis de sombra pontilhados de lampiões vacilantes que mal conseguiam arranhar a escuridão. Precisei de um pouco mais do que os trinta minutos que o inspetor Grandes tinha me concedido para descobrir que havia duas lavanderias na Rua Cadena. A primeira, apenas uma cova no fundo de uma escadaria reluzente de vapor, só empregava crianças com as mãos roxas de tinta e os olhos amarelados. A segunda, um depósito de sebo e fedor de solvente, do qual era difícil acreditar que pudesse sair alguma coisa limpa, estava sob o comando de uma mulherona que, à vista de algumas moedas, não perdeu tempo em admitir que Maria Antonia Sanahuja trabalhava ali seis tardes por semana. — O que foi que ela fez agora? — perguntou a matrona. — Recebeu uma herança. Diga onde posso encontrá-la e, no mínimo, poderá ganhar alguma coisinha. A matrona riu e seus olhos brilharam de cobiça. — Que eu saiba vive na pensão Santa Lucía, na Rua Marquês de Barberá. E quanto foi que herdou? Joguei algumas moedas no balcão e saí daquele poço imundo sem me dar ao trabalho de responder. A pensão onde Irene Sabino vivia definhava num edifício sombrio que parecia feito de ossos desenterrados e lápides roubadas. As placas das caixas de correio da portaria estavam cobertas de ferrugem. Nos dois primeiros andares, não havia nome algum. O terceiro andar hospedava um ateliê de costura e confecção com o retumbante nome de A Têxtil Mediterrânea. O quarto e último andar era ocupado pela pensão Santa Lucía. Uma escada que dava passagem a apenas uma pessoa subia na penumbra, o hálito dos esgotos infiltrando-se nas paredes e roendo a pintura como ácido. Subi os quatro lances até chegar a um patamar inclinado que dava para uma única porta. Bati com o punho e logo apareceu um homem alto e magro como um pesadelo de El Greco. — Estou procurando por Maria Antonia Sanahuja — disse. — É o médico? — perguntou. Empurrei-o de lado e entrei. O apartamento não era mais do que um amontoado de quartos estreitos e escuros que se apinhavam dos dois lados de um corredor que morria numa janela diante de um respiradouro. O fedor que subia dos encanamentos impregnava