O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 411

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Concordei. O inspetor pegou um cigarro, acendeu, saboreou algumas tragadas e apagou.
— Esse é o meu dilema, Martín. Por um lado, acho que tentou me fazer engolir um monte de disparates que foi inventando simplesmente porque acha que sou idiota ou, o que talvez seja pior ainda, coisas em que começou a acreditar de tanto repetir. Tudo aponta para você e seria muito mais fácil lavar as mãos e entregá-lo a Marcos e Castelo.— Porém....— Porém, e trata-se de um porém minúsculo, tão insignificante que meus colegas não teriam problema nenhum em deixá-lo de lado, mas que me incomoda como um cisco no olho, fico indeciso pensando que talvez, e o que vou dizer contradiz tudo o que aprendi em vinte anos de profissão, o que me contou não seja verdade, mas também não seja totalmente falso.
— Só posso lhe dizer que contei tudo o que recordo, inspetor. Pode acreditar ou não. Na verdade, até eu deixo de acreditar às vezes. Mas é o que recordo. Grandes levantou e começou a dar voltas ao redor da mesa.— Essa tarde, quando falava com Maria Antonia Sanahuja, ou Irene Sabino, no seu quarto de pensão, perguntei se sabia quem era você. Ela disse que não. Expliquei que morava na casa da torre, onde ela e Marlasca passaram vários meses juntos. Perguntei de novo se lembrava de você. Respondeu que não. Um pouco depois, disse que você tinha ido ao mausoléu da família Marlasca e que tinha garantido que ela estava lá. Pela terceira vez, a mulher confirmou que nunca o tinha visto na vida. E eu acreditei. Acreditei até que, quando eu já estava indo embora, ela disse que estava com frio e se virou para abrir o armário e pegar uma manta de lã para jogar nos ombros. Foi quando percebi um livro em cima da mesa. Chamou minha atenção porque era o único em todo o quarto. Aproveitando que estava de costas para mim, abri o livro e li uma dedicatória escrita a mão na primeira página.
— " Para o Sr. Sempere, o melhor amigo que um livro poderia desejar, por abrir-me as portas do mundo e me ensinar a atravessá-las "— citei de memória.— Assinado, " David Martín "— completou Grandes. O inspetor parou diante da janela, de costas para mim.— Em meia hora, virão buscá-lo e serei afastado do caso— disse.— Passará então para a custódia do sargento Marcos e já não poderei fazer nada. Tem algo a dizer que me ajude a salvar seu pescoço?
— Não.