O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Página 410

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Saiba que não tem nada contra você. De fato, quase tentou me convencer a deixá- lo livre. Diz que tudo isso deve ter alguma explicação. Que você teve uma vida difícil. Que perdeu o pai por culpa dele. Que se sente responsável. Que a única coisa que quer é recuperar a esposa e que não tem nenhuma intenção de tomar medidas de represália contra você. — Contou toda essa história a Vidal? — Não tive outro remédio. Escondi o rosto entre as mãos. — O que ele disse? — perguntei. Grandes deu de ombros. — Pensa que você perdeu a razão. Que deve ser inocente e que não quer que nada lhe aconteça, seja inocente ou não. Sua família já é uma outra história. Consta que o pai de seu amigo Vidal, que como eu já disse, não o tem como santo de devoção, ofereceu por baixo do pano uma bonificação a Marcos e Castelo se conseguissem arrancar uma confissão em menos de 12 horas. Eles garantiram que numa manhã você vai recitar até os versos do Canigó. — E o senhor, inspetor, acredita em quê? — A verdade? A verdade é que gostaria de acreditar que Pedro Vidal está certo, que você perdeu a razão. Não lhe disse que, naquele exato momento, eu também começava a acreditar naquilo. Olhei para Grandes e percebi que havia algo em sua expressão que não batia com o resto. — Tem alguma coisa que ainda não me contou — apontei. — Pois eu diria que lhe contei bem mais do que o suficiente - replicou. Grandes me observou atentamente e, em seguida, deixou escapar uma risada contida. — Essa manhã, quando contou que, na noite em que o Sr. Sempere morreu alguém esteve na livraria e os vizinhos ouviram uma discussão, sua suspeita era de que essa pessoa queria comprar um livro seu, e quando Sempere se negou a vendê-lo houve uma briga e o livreiro sofreu um ataque do coração. Segundo sua versão, era uma peça quase única, da qual há apenas alguns exemplares. Como se chamava o livro? — Os Passos do Céu. — Exatamente. É esse o livro que, segundo suspeitava, foi roubado na noite em que Sempere morreu.