O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 401

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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Dessa vez não houve efeitos especiais, nem cenografia apavorante, nem ecos de calabouços úmidos e escuros. A sala era ampla, luminosa, com pé-direito alto. Fazia pensar numa sala de aula de colégio religioso de elite, crucifixo na parede incluído. Estava situada no primeiro andar da Chefatura de Polícia, com amplas janelas que davam vista para as pessoas e bondes que já começavam seu desfile matutino pela Via Layetana. No centro da sala estavam dispostas duas cadeiras e uma mesa de metal que, abandonadas entre tanto espaço vazio, pareciam minúsculas. Grandes levou-me até a mesa e ordenou que Marcos e Castelo nos deixassem a sós. Os dois policiais levaram algum tempo para acatar a ordem. Dava para sentir no ar o cheiro da raiva que respiravam. Grandes esperou que saíssem e relaxou.— Pensei que ia me atirar aos leões— disse eu.— Sente-se. Obedeci. Não fossem os olhares de Marcos e Castelo ao sair, a porta de metal e as grades do outro lado dos vidros, ninguém diria que minha situação era grave. A garrafa térmica de café e o maço de cigarros que Grandes deixou sobre a mesa, mas sobretudo o seu sorriso sereno e afável acabaram de me convencer disso. Determinado. Dessa vez o inspetor falava a sério.
Sentou-se na minha frente e abriu uma pasta, da qual extraiu fotografias que colocou sobre a mesa, uma ao lado da outra. Na primeira aparecia o advogado Valera na poltrona de sua sala. Junto a ele havia a imagem do cadáver da viúva Marlasca, ou o que restava dele logo depois de ser retirado do fundo da piscina de sua casa na estrada de Vallvidrera. Uma terceira fotografia mostrava um homenzinho com a garganta arrebentada que parecia com Damián Roures. A quarta imagem era de Cristina Sagnier e percebi que tinha sido tirada no dia de seu casamento com Pedro Vidal. As duas últimas eram retratos feitos em estúdio de meus antigos editores, Barrido e Escobillas. Uma vez alinhadas cuidadosamente as seis fotografias, Grandes me dedicou um olhar impenetrável e deixou que dois minutos se passassem em silêncio, estudando minha reação diante das imagens ou a ausência dela. Em seguida, com infinita calma, serviu duas xícaras de café e empurrou uma para mim.
— Antes de mais nada, gostaria de lhe dar a oportunidade de me contar tudo, Martín. À sua maneira e sem pressa— disse finalmente.