O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 400

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA sido lixada. Bati nela. O eco resultante não dava margem a nenhuma dúvida. Aquilo não era uma parede mestra. Havia alguma coisa do outro lado. Apoiei a cabeça contra a parede e fiquei atento. Foi quando ouvi um ruído. Passos no corredor, aproximando-se... Retrocedi lentamente e estiquei a mão até o casaco que tinha deixado numa cadeira, para pegar o revólver. Uma sombra se estendeu diante da porta. Segurei a respiração. A silhueta apareceu lentamente no interior do quarto. — Inspetor... — murmurei. Victor Grandes sorriu friamente. Imaginei que estavam me esperando há horas escondidos em algum portão da Rua. — Está fazendo reformas, Martín? — Arrumando. O inspetor olhou a pilha de vestidos e caixas atirados no chão e o armário desencaixado e limitou-se a acenar que sim. — Pedi a Marcos e Castelo que me esperassem embaixo. Ia chamá-lo, mas como deixou a porta aberta, tomei a liberdade. Disse a mim mesmo: o amigo Martín deve estar esperando por mim. — O que posso fazer pelo senhor, inspetor? — Acompanhar-me à delegacia, se tiver a gentileza. — Estou preso? — Temo que sim. Vai ser do jeito fácil ou vamos escolher o mais difícil? — Não — garanti. — Agradeço. — Posso pegar meu casaco? — perguntei. Grandes olhou dentro dos meus olhos por um instante. Depois, pegou o casaco e ajudou-me a vesti-lo. Senti o peso do revólver contra a perna. Abotoei o casaco com calma. Antes de sair do quarto, o inspetor deu uma última olhada na parede que tinha ficado descoberta. Em seguida, indicou que fosse para o corredor. Marcos e Castelo tinham chegado ao patamar e esperavam com um sorriso triunfante. Ao chegar ao fim do corredor, parei um momento para olhar para dentro da casa, que parecia se encolher num poço de sombra. Perguntei-me se a veria de novo. Castelo sacou as algemas, mas Grandes fez um gesto negativo. — Não será necessário, não é mesmo, Martín? Concordei. Grandes fechou a porta e empurrou-me suavemente para a escada.