O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 399

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 17 Quando cheguei à casa da torre, começava a amanhecer. O ferrolho da porta da Rua estava arrebentado. Empurrei o portão com a mão e entrei no hall. Do outro lado do portão, o mecanismo do ferrolho fumegava e exalava um cheiro intenso. Ácido. Subi as escadas lentamente, convencido de que encontraria Marlasca me esperando nas sombras do patamar ou que estaria lá, sorrindo às minhas costas, se virasse de repente. Ao percorrer o último trecho da escada, percebi que o buraco da fechadura também mostrava vestígios de ácido. Introduzi a chave e tive que me esforçar durante quase dois minutos para desbloquear a fechadura, que estava avariada, mas aparentemente não tinha cedido. Tirei a chave mordida por aquela substância e abri a porta com um empurrão. Deixando-a aberta às minhas costas, entrei pelo corredor sem tirar o casaco. Tirei o revólver do bolso e abri o tambor. Retirei os cartuchos usados, substituindo por novas balas, tal como tinha visto meu pai fazer tantas vezes quando voltava para casa de madrugada. — Salvador? — chamei. O eco de minha voz espalhou-se pela casa. Engatilhei o revólver. Continuei avançando pelo corredor até chegar ao quarto dos fundos. A porta estava encostada. — Salvador? — perguntei. Apontei o revólver para a porta e abri com um pontapé. Não havia sinal de Marlasca no interior, apenas a montanha de caixas e objetos velhos empilhados contra a parede. Senti de novo aquele cheiro que parecia filtrar-se pelas paredes. Fui até o armário que cobria a parede do fundo e abri as portas de par em par. Retirei as roupas velhas que pendiam dos cabides. A corrente fria e úmida que brotava daquele orifício na parede acariciou meu rosto. O que Marlasca tinha escondido naquela casa, fosse o que fosse, estava atrás daquela parede. Guardei a arma no bolso e tirei o casaco. Fui até o extremo do armário e introduzi o braço no vão que ficava entre ele e a parede. Consegui segurar a parte de trás da estrutura com a mão e puxei com força. O primeiro puxão permitiu que ganhasse um par de centímetros para segurar melhor e puxei de novo. O armário cedeu quase um palmo. Continuei puxando o extremo para fora até ter espaço para me enfiar ali. Um vez lá atrás, empurrei com o ombro e consegui arrastá-lo completamente, até a parede contígua. Parei para recuperar o fôlego e examinei a parede. Estava pintada num tom de ocre diferente do resto do quarto. Sob a pintura se adivinhava uma espécie de massa argilosa que não tinha