O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 402

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Não vai adiantar nada — repliquei. — Não vai mudar nada. — Prefere que façamos uma acareação com outros possíveis implicados? Com sua assistente, por exemplo? Como se chamava? Isabella? — Deixe-a em paz. Ela não sabe de nada. — Convença-me. Olhei para a porta. — Só há uma maneira de sair dessa sala, Martín — disse o inspetor mostrando-me a chave. Senti de novo o peso do revólver no bolso do casaco. — Por onde quer que comece? — Você é o narrador. Só peço que me diga a verdade. — Não sei qual é a verdade. — A verdade é o que dói. Pelo espaço de mais ou menos duas horas, Víctor Grandes não abriu a boca uma única vez. Ouviu atentamente, concordando ocasionalmente e fazendo anotações em seu caderno de vez em quando. No começo, estava olhando para ele, mas logo esqueci que estava ali e descobri que estava contando a história para mim mesmo. As palavras me fizeram viajar a um tempo que acreditava perdido, à noite em que assassinaram meu pai na porta do jornal. Recordei meus dias na redação de La Voz de la Industria, os anos em que tinha sobrevivido escrevendo histórias de terror e aquela primeira carta assinada por Andreas Corelli, prometendo grandes esperanças. Recordei o primeiro encontro com o patrão no Depósito das Águas e aqueles dias em que a certeza da morte era todo o horizonte que havia diante de mim. Falei de Cristina, de Vidal e de uma história cujo final qualquer um poderia intuir, menos eu. Falei dos livros que tinha escrito, um com meu nome e outro com o de Vidal, da perda daquelas míseras esperanças e da tarde em que vi minha mãe abandonar na lixeira a única coisa boa que acreditava ter feito na vida. Não buscava a compaixão, nem a compreensão do inspetor. Para mim, bastaria traçar um mapa imaginário dos acontecimentos que tinham me conduzido até aquela sala, até aquele instante de vazio absoluto. Voltei à casa junto ao Parque Güell e à noite em que o patrão tinha feito uma oferta que eu não podia recusar. Confessei minhas primeiras suspeitas, minhas investigações sobre a história da casa da torre, sobre a estranha morte de Diego Marlasca e a rede de enganos na qual tinha me envolvido ou que tinha escolhido para satisfazer minha vaidade, minha cobiça e minha vontade de viver a qualquer preço. Viver para contar a história.