O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 397
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Irene teria arrancado seus olhos e seu coração por Marlasca. Era a sua única razão
de viver. Ela o amava cegamente e, como ele, acreditava que sua única salvação estava
na magia. No princípio, quis oferecer a própria vida em sacrifício, mas minha mãe a
dissuadiu. Disse o que ela já sabia, que sua alma não estava livre de pecado e que seu
sacrifício seria em vão. Disse isso para salvá-la. Para salvar os dois.
— De quem?
— Deles mesmos.
— Mas cometeu um erro...
— Nem mesmo a minha mãe era capaz de enxergar tudo.
— E o que Marlasca fez?
— Minha mãe nunca quis me dizer, não queria que eu e meus irmãos fizéssemos
parte disso. Mandou-nos para longe, separados, cada um num internato diferente para que
esquecêssemos de onde vínhamos e quem éramos. Dizia que agora nós também
estávamos amaldiçoados. Morreu pouco depois, sozinha. Não soubemos de nada até
muito tempo depois. Quando encontraram seu cadáver, ninguém se atreveu a tocá-lo e
deixaram que o mar o levasse. Ninguém se atrevia a falar de sua morte. Mas eu sabia
quem a tinha matado e porquê. E ainda hoje, acredito que minha mãe sabia que ia morrer
logo e nas mãos de quem morreria. Sabia e não fez nada porque, afinal, ela também
acreditou. Acreditou que não era capaz de aceitar o que tinha feito. Acreditou que
entregando sua alma salvaria a nossa e a desse lugar. Por isso não quis fugir daqui,
porque a velha lenda dizia que a alma que se entregava devia ficar eternamente no lugar
em que tinha cometido a traição, uma venda nos olhos da morte, encarcerada para
sempre.
— E onde está a alma que salvou Diego Marlasca?
A mulher sorriu.
— Não há almas nem salvações, Sr. Martín. São velhas histórias e boatos. A única
coisa que há são cinzas e recordações, mas se elas existem, estarão no mesmo lugar em
que Marlasca cometeu seu crime, o segredo que tem escondido durante todos esses anos
para enganar seu próprio destino.
— A casa da torre.... Vivi quase dez anos lá e não há nada lá.
Sorriu de novo e, olhando fixamente nos olhos, inclinou-se para mim e beijou meu
rosto. Seus lábios eram gelados como os de um cadáver. Seu hálito cheirava a flores
mortas.