O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 396
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Diego Marlasca precisava acreditar. Minha mãe o ajudou a fazê-lo. Isso foi tudo.
— Acreditar em quê?
— Em sua própria salvação. Estava convencido de que tinha traído a si mesmo e
àqueles que o amavam. Acreditava que tinha conduzido sua vida por um caminho de
maldade e falsidade. Minha mãe achou que isso não o tornava muito diferente dos homens
que, em algum momento de suas vidas, resolvem se olhar no espelho. São sempre os
mais bestiais e mesquinhos que se consideram mais virtuosos e olham o resto do mundo
por cima do ombro. Mas Diego Marlasca era um homem de consciência e não estava
satisfeito com o que via. Por isso procurou minha mãe. Porque tinha perdido a esperança
e, provavelmente, a razão.
— Marlasca contou o que tinha feito?
— Disse que tinha entregado a alma a uma sombra.
— Uma sombra?
— Essas foram as suas palavras. Uma sombra que o seguia, que tinha a sua mesma
forma, seu mesmo rosto e sua mesma voz.
— O que isso significava?
— A culpa e o remorso não têm significado. São sentimentos, emoções, não ideias.
Ocorreu-me que nem o patrão explicaria a coisa com mais clareza.
— E o que sua mãe poderia fazer por ele? — perguntei.
— Nada além de consolá-lo e ajudá-lo a encontrar alguma paz. Diego Marlasca
acreditava em magia e por esse motivo minha mãe pensou que devia convencê-lo de que
seu caminho para a salvação passava por ela. Falou de um velho encantamento, uma
lenda de pescadores que tinha ouvido quando era menina entre as cabanas da praia.
Quando um homem perde seu rumo na vida e sente que a morte já colocou um preço por
sua alma, diz a lenda que, se encontrar uma alma pura que aceite se sacrificar por ele,
poderá esconder o seu coração negro por trás dela, e a morte, ofuscada, passará ao largo.
— Uma alma pura?
— Livre de pecado.
— E como fazer isso?
— Com dor, é claro.
— Que tipo de dor?
— Um sacrifício de sangue. Uma alma em troca de outra. Morte em troca de vida.
Um longo silêncio. O barulho do mar na praia e do vento entre os barracos.