O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 395

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Por quê?— Para silenciá-la. Para ocultar seu próprio rastro.— Não compreendo. Sua mãe o ajudou... Ele chegou a lhe dar uma grande quantidade de dinheiro em troca de sua ajuda.— Resolveu matá-la por isso mesmo, para que levasse seu segredo para o túmulo. Observou-me com um leve sorriso, como se minha confusão a divertisse e, ao mesmo tempo, inspirasse pena.
— Minha mãe era uma mulher comum, Sr. Martín. Cresceu na miséria, e o único poder que tinha era a vontade de sobreviver. Nunca aprendeu a ler nem escrever, mas conseguia ver dentro das pessoas. Sentia o que sentiam, o que escondiam, o que desejavam. Lia em seus olhos, em seus gestos, em sua voz, no modo como caminhavam ou gesticulavam. Sabia o que iam dizer e fazer antes que o fizessem. Por isso, muitos a chamavam de feiticeira, porque era capaz de ver neles o que eles mesmos se negavam a ver. Ganhava a vida vendendo poções de amor e encantamentos que preparava com água dos riachos, ervas e uns grãos de açúcar. Ajudava as almas perdidas a acreditar no que queriam acreditar. Quando seu nome começou a ficar conhecido, muita gente de posição começou a visitá-la e a solicitar seus favores. Os ricos queriam ficar ainda mais ricos. Os poderosos queriam mais poder. Os mesquinhos queriam se sentir santos, e os santos queriam ser castigados por pecados que lamentavam não ter tido a coragem de cometer. Minha mãe ouvia a todos e aceitava suas moedas. Com esse dinheiro, eu e meus irmãos pudemos estudar nos colégios que os filhos de seus clientes freqüentavam. Comprou para nós um outro nome e uma outra vida longe desse lugar. Minha mãe era uma boa pessoa, Sr. Martín. Não se engane. Nunca se aproveitou de ninguém, nem fez ninguém acreditar em nada além daquilo em que precisava acreditar. A vida lhe ensinou que todos nós precisamos tanto de grandes e pequenas mentiras quanto de ar. Dizia que se fôssemos capazes de ver a realidade do mundo e de nós mesmos, sem rodeios, por um só dia, do amanhecer ao entardecer, daríamos cabo da própria vida ou perderíamos a razão.— Mas...— Se veio até aqui procurando magia, sinto decepcioná-lo. Minha mãe me explicou que não existe magia, que não existe mais mal ou bem no mundo do que aquele que nós mesmos imaginamos, por cobiça ou ingenuidade. E também por loucura, às vezes.
— Não foi isso que contou a Diego Marlasca quando aceitou seu dinheiro— objetei.— Sete mil pesetas naquela época davam para comprar vários anos de bom nome e bons colégios.