O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 381

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 13 Afastei-me colina abaixo, rumo ao novelo de Ruas escuras da Gracia. Encontrei um café aberto que reunia uma bem fornida congregação de vizinhos, discutindo animadamente: era difícil determinar se falavam de política ou de futebol. Esquivei as pessoas e atravessei uma nuvem de fumaça para chegar até o balcão, onde o taberneiro me encarou com um olhar vagamente hostil, com o qual supus que recebesse todos os estranhos, que naquele caso deviam ser todos os moradores de qualquer lugar que ficasse a mais de duas quadras de seu estabelecimento. — Preciso usar o telefone — disse. — O telefone é só para os clientes. — Sirva-me um conhaque. E o telefone. O taberneiro pegou um copo e indicou um corredor no fundo da sala que se abria sob um cartaz que dizia Sanitários. Bem no final encontrei um arremedo de cabine telefônica, na frente da entrada dos banheiros, exposta a um intenso fedor de amoníaco e ao barulho que se filtrava da sala. Peguei o fone e esperei até obter linha. Alguns segundos depois, a telefonista da central da companhia telefônica respondeu. — Preciso fazer uma ligação para o escritório de advocacia de Valera, no número 442 da avenida Diagonal. A telefonista levou dois minutos para encontrar o número e fazer a ligação. Esperei ali, segurando o fone na mão e tapando o ouvido esquerdo com a outra. Finalmente, confirmou que ia transferir a chamada e em poucos segundos reconheci a voz da secretária do Dr. Valera. — Sinto muito, mas o Dr. Valera não se encontra aqui nesse momento. — É muito importante. Diga que meu nome é Martín, David Martín. E que é um assunto de vida ou morte. — Sei quem é o senhor, Sr. Martín. Sinto muito, mas não posso chamar o advogado Valera porque ele não está. São nove e meia da noite e já faz um tempo que se retirou. — Então diga o endereço de sua casa. — Não posso lhe dar essa informação, Sr. Martín. Lamento muito. Se desejar, pode ligar amanhã de manhã e...