PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
não teria deixado tudo ali esperando que eu encontrasse, como tinha encontrado o fantoche. Acendi uma das velas e atravessei o salão em direção à porta. Passei os olhos pelo boneco caído mais uma vez e, com a vela no alto e o revólver firmemente empunhado na mão direita, resolvi descer. Avancei degrau por degrau, parando a cada passo para olhar às minhas costas. Quando cheguei à sala do porão, segurei a vela tão longe de mim quanto era possível e descrevi um semicírculo com ela. Estava tudo ali: a mesa de operação, as luzes a gás e a bandeja de instrumentos cirúrgicos. Tudo coberto por uma pátina de poeira e teias de aranha. Mas havia algo mais. Havia outras silhuetas apoiadas contra a parede. Tão imóveis quanto a do patrão. Deixei a vela na mesa de operações e aproximei-me daqueles corpos inertes. Reconheci o criado que tinha nos atendido na primeira noite e o motorista que me levou para casa depois do jantar com Corelli nos jardins da casa. Havia outras figuras que não consegui identificar. Uma delas estava colocada contra a parede, o rosto escondido. Empurrei com a ponta da arma, fazendo a estrutura girar e um segundo depois estava olhando para mim mesmo. Senti que um calafrio me percorria. O boneco que me imitava só tinha meio rosto. A outra metade não tinha feições formadas. Estava prestes a esmagar aquela face com uma cacetada, quando ouvi a risada de um menino no alto da escadaria. Contive a respiração e então uma série de estalidos secos se produziram. Corri escada acima e ao chegar ao primeiro andar o boneco do patrão já não estava no chão onde tinha ficado caído. Um rastro de pegadas afastava-se de lá em direção ao corredor. Engatilhei o revólver e segui aquele rastro até o corredor que conduzia ao saguão. Parei no umbral e levantei a arma. As pegadas se detinham no meio do corredor. Procurei pela forma oculta do patrão entre as sombras, mas não havia sinal dele. No fundo do corredor a porta principal continuava aberta. Avancei lentamente até o ponto onde o rastro se detinha. Só reparei naquilo alguns segundos mais tarde, quando percebi que o espaço vazio que tinha visto entre as fotografias da parede não estava mais lá. Em seu lugar, havia uma nova moldura, com uma fotografia que parecia saída da mesma objetiva de todas as outras que formavam aquela macabra coleção: Cristina vestida de branco, o olhar perdido no olho da lente. Não estava sozinha. Uns braços a rodeavam e a mantinham em pé, seu proprietário sorrindo para a câmera. Andreas Corelli.