O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 379

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 12 O recuo da arma golpeou meu antebraço como uma martelada seca. Uma nuvem de fumaça azul ergueu-se do cano do revólver. Uma das mãos de Corelli caiu do braço da poltrona e balançou, as unhas roçando o chão, e disparei outra vez. A bala atingiu seu peito e abriu um orifício fumegante na roupa. Fiquei sustentando o revólver com as duas mãos, sem me atrever a dar um passo, esquadrinhando o vulto imóvel sobre a poltrona. O balanço do braço foi se detendo lentamente até que o corpo ficasse inerte e que suas unhas, longas e polidas, se ancorassem no piso de carvalho. Não houve ruído algum, nem um vestígio de movimento naquele corpo que acabava de encaixar dois balaços, um no rosto e outro no peito. Retrocedi alguns passos até a janela, que abri com um chute, sem afastar os olhos da poltrona onde jazia Corelli. Uma coluna de luz vaporosa abriu caminho da balaustrada até o canto da sala, iluminando o corpo e o rosto do patrão. Tentei engolir saliva, mas minha boca estava seca. O primeiro disparo tinha aberto um buraco entre seus olhos. O segundo tinha esburacado sua lapela. Não havia uma gota de sangue. Em seu lugar destilava-se uma poeira fina e brilhante como a de um relógio de areia, que deslizava pelas dobras da roupa. Os olhos brilhavam e tinha os lábios congelados num sorriso sarcástico. Era um boneco. Abaixei o revólver, com a mão ainda tremendo, e aproximei-me vagarosamente. Inclinei-me para aquele fantoche grotesco e lentamente aproximei a mão de seu rosto. Por um instante, temi que a qualquer momento os olhos de vidro se movessem e aquelas mãos de unhas longas saltassem em meu pescoço. Rocei a face com a ponta dos dedos. Madeira esmaltada. Não pude evitar uma risada amarga. Não se podia esperar menos que isso do patrão. Defrontei-me mais uma vez com aquele resgar zombeteiro e brindei-o com uma coronhada que derrubou o boneco de lado. Vi quando caía no chão e investi a pontapés contra ele. A armação de madeira foi se deformando até que braços e pernas ficaram embaralhados numa posição impossível. Retrocedi alguns passos e olhei ao redor. Examinei a grande tela com a figura do anjo e arranquei com um puxão. Atrás do quadro estava a porta de acesso ao porão que lembrava a noite em que tinha dormido ali. Experimentei a fechadura. Estava aberta. Vasculhei a escada que descia para um poço escuro. Fui até a cômoda onde recordava ter visto Corelli guardar os 100 mil francos durante o nosso primeiro encontro na casa e procurei nas gavetas. Numa delas encontrei uma caixa de latão com velas e fósforos. Hesitei um instante, perguntando-me se o patrão