O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Página 376

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA traçando agulhas de luz azul que escorregavam pelas vidraças dos compartimentos. Quando os passos se detiveram diante da minha cabine, contive a respiração. As vozes tinham se calado. Ouvi a portinhola se abrir e as botas passaram a dois palmos de meu rosto. O guarda permaneceu ali alguns segundos e saiu em seguida, fechando a porta. Seus passos afastaram-se pelo vagão. Fiquei ali, imóvel. Alguns minutos depois, ouvi um estalido e o hálito quente espalhado pela grade da calefação acariciou meu rosto. Uma hora mais tarde, as primeiras luzes do amanhecer roçaram as janelas. Saí de meu esconderijo e olhei para fora. Viajantes solitários percorriam a plataforma arrastando seus vultos e suas malas. Podia sentir o rumor da locomotiva em marcha nas paredes e no chão do vagão. Em alguns minutos, os viajantes começaram a subir no trem e o cobrador acendeu as luzes. Voltei a sentar no banco, perto da janela, e devolvi o cumprimento de alguns dos passageiros que passavam diante da cabine. Quando o grande relógio da estação bateu oito horas, o trem começou a deslizar. Só então fechei os olhos e ouvi os sinos da igreja repicarem na distância como o eco de uma maldição. O trajeto de volta transcorreu cheio de atrasos. Parte da rede elétrica tinha caído e só chegamos a Barcelona ao entardecer daquela sexta-feira, 23 de janeiro. A cidade estava sepultada sob um céu escarlate sobre o qual se estendia uma teia de aranha de fumaça negra. Fazia calor, como se o inverno tivesse se retirado repentinamente, e um hálito sujo e úmido subisse das grades da rede de esgoto. Ao abrir o portão da casa da torre, encontrei um envelope branco no chão. Reconheci o selo de lacre vermelho que o fechava e nem me dei ao trabalho de pegá-lo, pois sabia perfeitamente o que continha: um lembrete do encontro marcado com o patrão para entregar o manuscrito naquela mesma noite no casarão do Parque Güell. Subi as escadas no escuro e abri a porta do andar principal. Não acendi a luz e fui direto para o escritório. Aproximei-me da janela e contemplei a sala sob o resplendor infernal que aquele céu em chamas destilava. Imaginei- a ali, tal como tinha descrito, de joelhos diante do baú. Abrindo o baú e extraindo dele a pasta com o manuscrito. Lendo aquelas páginas malditas com a certeza de que precisava destruí-las. Acendendo os fósforos e aproximando a chama do papel. Havia mais alguém na casa. Aproximei-me do baú e parei a alguns passos, como se estivesse nas suas costas, espiando-a. Inclinei-me para a frente e abri. O manuscrito continuava lá, esperando. Estiquei a mão para tocar a pasta com os dedos, acariciando-o. Foi então que o vi. A