PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
silhueta de prata brilhava no fundo do baú como uma pérola no fundo de um lago. Pegueio entre os dedos e examinei à luz daquele céu ensangüentado. O broche do anjo.— Filho da puta— ouvi-me dizer. Peguei a caixa com o velho revólver de meu pai no fundo do armário. Abri o tambor e verifiquei que estava carregado. Guardei o resto da caixinha de munição no bolso esquerdo do casaco. Enrolei a arma num pano e enfiei no bolso direito. Antes de sair, parei um instante para contemplar aquele estranho que me olhava de dentro do espelho do saguão. Sorri, a paz do ódio ardendo em minhas veias, e saí para a noite.
A casa de Andreas Corelli erguia-se na colina contra o manto de nuvens vermelhas. Atrás dela ondulava o bosque de sombras do Parque Güell. A brisa agitava os ramos e as folhas moviam-se como serpentes na escuridão. Parei diante da entrada e examinei a fachada da casa. As portinholas das janelas estavam fechadas. Escutei a respiração dos cães que perambulavam dentro dos muros do parque às minhas costas, seguindo meus passos. Tirei o revólver do bolso e virei para a entrada, onde se percebiam os vultos dos animais, sombras líquidas que observavam no escuro.
Aproximei-me da porta principal da casa e dei três pancadas secas com a aldrava. Não esperei resposta. Teria arrebentado a fechadura a tiros, mas não foi preciso. A porta estava aberta. Girei a maçaneta de bronze até soltar o trinco da fechadura, e a porta de carvalho deslizou lentamente para o interior com a inércia e seu próprio peso. O longo corredor abria-se à frente, a camada de poeira que cobria o chão brilhando como areia fina. Adiantei-me alguns passos e cheguei até a escadaria que subia de um lado do saguão, desaparecendo numa espiral e sombras. Avancei pelo corredor para chegar ao salão. Dezenas de olhares me seguiam na galeria de velhas fotografias emolduradas que cobriam as paredes. Os únicos sons que podia perceber eram meus passos e minha respiração. Cheguei no fim do corredor e parei. A claridade noturna filtrava-se pelas portinholas desenhando punhais de luz avermelhada. Ergui o revólver e entrei no salão. Ajustei meus olhos à escuridão. Os móveis estavam no mesmo lugar que recordava, mas até naquela luz escassa dava para ver que eram velhos e cobertos de poeira. Ruínas. Os cortinados pendiam desfiados e a pintura dos muros descascava em tiras que lembravam escamas. Fui até uma das janelas para abrir os postigos e deixar entrar alguma luz. Estava a cerca de 2 metros do balcão, quando compreendi que não estava só. Parei, gelado, e virei lentamente.
O vulto distinguia-se claramente no canto da sala, sentado na poltrona de sempre. A luz que entrava pelas janelas só revelava os sapatos brilhantes e o contorno do terno. O