O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 375

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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Não retornei ao quarto para pegar minhas coisas. Oculto entre as árvores que rodeavam o lago, pude ver pela vidraça quando o médico, acompanhado de dois policiais civis, chegou ao hotel e foi falar com o gerente. Ao abrigo das Ruas escuras e desertas, atravessei o povoado até a estação enterrada na neblina. Dois lampiões a gás permitiam que adivinhasse a silhueta de um trem que esperava na plataforma. O sinal vermelho aceso na saída da estação tingia seu esqueleto de metal escuro. A máquina estava parada, lágrimas de gelo pendiam de trilhos e alavancas como gotas de gelatina. Os vagões estavam às escuras, as janelas veladas pela geada. Não havia luz alguma na sala do chefe-de-estação. Ainda faltavam horas para a partida do trem, e a estação estava deserta.
Aproximei-me de um dos vagões e tentei abrir uma das portinholas. Estava trancada por dentro. Desci para os trilhos e rodeei o trem. Protegido pela sombra, subi na plataforma de engate entre os dois últimos vagões e tentei a sorte com a porta que fazia a comunicação entre os carros. Estava aberta. Enfiei-me no vagão e avancei na penumbra até uma das cabines. Entrei e puxei o ferrolho por dentro. Tremendo de frio, desmoronei na poltrona. Não me atrevia a fechar os olhos com medo de encontrar o olhar de Cristina sob o gelo me esperando. Passaram-se alguns minutos, talvez horas. Em algum momento, perguntei-me por que estava me escondendo e por que era incapaz de sentir o que quer que fosse.
Refugiei-me naquele vazio e esperei ali, escondido como um fugitivo, ouvindo os mil queixumes do metal e da madeira contraindo-se com o frio. Esquadrinhei as sombras atrás das janelas até que a luz de uma lanterna roçou as paredes do vagão e ouvi vozes na plataforma. Abri com os dedos uma espia na camada de vapor que mascarava os vidros e vi que o maquinista e dois operários se dirigiam para a parte dianteira do trem. A uma dezena de metros, o chefe-de-estação conversava com os dois policiais civis que estavam com o médico no hotel um pouco antes. Vi que concordava e pegava um molho de chaves, aproximando-se do trem seguido pelos guardas. Retirei-me de novo para a cabine. Alguns segundos depois, ouvi o barulho das chaves e o estalido da portinhola do vagão se abrindo. Passos avançaram da ponta do vagão. Levantei o ferrolho, deixando a porta da cabine aberta e me estendi no chão, colado à parede, sob uma das bancadas do assento. Ouvi os passos dos guardas aproximando-se, o facho das lanternas que carregavam