O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | страница 37

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Que lugar é esse? Sempere piscou o olho e deu aquele sorriso misterioso que parecia roubado de um folhetim de Alexandre Dumas e que, diziam, era marca de família.— Tudo tem seu tempo, meu amigo. Tudo tem seu tempo. Meu pai passou a semana inteira cabisbaixo, os olhos no chão, corroído pelo remorso. Comprou uma lâmpada nova e chegou a dizer que, se quisesse acendê-la, que o fizesse, mas não por muito tempo, pois a eletricidade era muito cara. Mas preferi não brincar com fogo. No sábado daquela mesma semana, meu pai quis comprar um livro para mim e foi a uma livraria na Rua da Palia, em frente à velha muralha romana, a primeira e última em que pisava. Porém, como não podia ler os títulos nas lombadas das centenas de livros ali expostos, saiu de mãos vazias e, em seguida, me deu dinheiro, mais do que de costume, e disse que comprasse o que quisesse. Achei que aquele era o momento certo para trazer à baila um assunto para o qual procurava, há muito tempo, uma ocasião propícia.
— Dona Mariana, a professora, pediu que perguntasse se pode passar na escola um dia para conversar com ela— soltei.— Falar de quê? O que andou aprontando?— Nada, pai. Dona Mariana queria falar sobre minha educação futura. Disse que tenho possibilidades e que poderia me ajudar a conseguir uma bolsa para estudar na Escola Pias...
— Quem essa mulher pensa que é para encher sua cabeça de caraminholas e dizer que vai botar você numa escola de filhinhos de papai? Sabe como é essa gentinha? Sabe como vão olhar para você e como vão tratá-lo quando souberem de onde vem? Baixei os olhos.— Dona Mariana só quer ajudar, pai. Nada mais. Não se aborreça. Vou dizer que não vai dar e pronto. Meu pai olhou para mim com raiva, mas respirou fundo várias vezes e conseguiu se conter, fechando os olhos antes de dizer mais alguma coisa.— Vamos melhorar de vida, entendeu? Você e eu. Sem as esmolas desses filhos da puta. E com a cabeça bem alta.— Sim, pai. Meu pai pôs a mão em meu ombro e olhou para mim como se, por um breve instante que nunca voltaria, estivesse orgulhoso de mim, embora fôssemos tão diferentes, embora eu gostasse de livros que ele não podia nem ler, embora ela tivesse nos abandonado, aos dois, eu e ele, um contra o outro. Naquele momento, acreditei que meu pai era o melhor