O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 368
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Cristina? — chamou o doutor.
Não houve resposta. A porta finalmente cedeu e se abriu de um golpe. Segui o médico
e entramos no quarto imerso na penumbra. A janela estava aberta e um vento gelado
inundava o aposento. As cadeiras, mesas e poltronas estavam caídas. As paredes
estavam manchadas de algo que parecia um traçado irregular de tinta negra. Era sangue.
Não havia sinal de Cristina.
Os enfermeiros correram para a varanda e esquadrinharam o jardim em busca de
pegadas na neve. O doutor olhava de um lado e de outro, em busca de Cristina. Foi então
que ouvimos uma risada vinda do banheiro. Aproximei-me da porta e abri. O chão estava
coberto de vidro. Cristina estava sentada no chão, apoiada na banheira de metal como um
boneco quebrado. Suas mãos e seus pés sangravam, cheios de cortes e cacos de vidro.
Seu sangue ainda deslizava pelas rachaduras do espelho, que tinha destruído aos socos.
Tomei-a nos braços e busquei seu olhar. Sorriu.
— Não deixei ele entrar — disse.
— Quem?
— Queria que esquecesse, mas não o deixei entrar — repetiu.
O médico ajoelhou-se ao meu lado e examinou os cortes e ferimentos que cobriam
todo o corpo de Cristina.
— Por favor — murmurou, afastando-me. — Agora não.
Um dos enfermeiros tinha corrido para pegar uma maca. Ajudei-os a deitar Cristina e
segurei sua mão enquanto a conduziam para o consultório, onde o Dr. Sanjuán aplicou um
calmante que em apenas alguns segundos lhe roubou a consciência. Fiquei ao seu lado,
olhando-a nos olhos até que seu olhar se transformasse num espelho vazio e uma das
enfermeiras me segurasse pelo braço, tirando-me de lá. Fiquei ali, no meio de um corredor
mal iluminado, cheirando a desinfetante, com as mãos e a roupa manchadas de sangue.
Encostei na parede e fui deslizando até o chão.
Cristina despertou no dia seguinte e se viu presa com correias de couro a uma cama,
trancada num quarto sem janelas e nenhuma luz além da lâmpada amarelada presa no
teto. Eu tinha passado a noite numa cadeira colocada num canto, observando-a, sem
noção do tempo transcorrido. Abriu os olhos de repente, uma careta de dor no rosto ao
sentir as pontadas das feridas que cobriam os braços.
— David?
— Estou aqui — respondi.