O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 367
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
cela no hotel, sentia que o velho abismo de escuridão e ódio que pensava esquecido se
reabria dentro de mim. O Dr. Sanjuán, que me observava com a mesma paciência e
determinação que reservava a seus pacientes, tinha avisado que aquilo podia acontecer.
— Não deve perder a esperança, meu amigo — dizia. — Estamos fazendo grandes
progressos. Tenha confiança.
Eu concordava, dócil, e voltava dia após dia ao sanatório para levar Cristina para um
passeio no lago, para ouvir aquelas recordações sonhadas, que ela recontava dezenas de
vezes, mas descobria novamente a cada dia. Todos os dias, perguntava onde tinha
estado, por que não tinha voltado para buscá-la, por que a tinha deixado sozinha. Todos os
dias me olhava de sua jaula invisível e me pedia que a abraçasse. Todos os dias, ao
despedir-me dela, perguntava se eu a amava e eu sempre respondia a mesma coisa.
— Vou amá-la para sempre — dizia. — Sempre.
Uma noite acordei ouvindo batidas na porta do meu quarto. Eram três da madrugada.
Fui até a porta, aturdido, e encontrei uma das enfermeiras do sanatório.
— O Dr. Sanjuán pediu que viesse chamá-lo.
— O que aconteceu?
Dez minutos mais tarde entrava pelas portas da Villa San Antonio. Os gritos podiam
ser ouvidos do jardim. Cristina tinha trancado a porta de seu quarto por dentro. O Dr.
Sanjuán, com cara de quem não dormia há uma semana, e dois enfermeiros estavam
tentando arrombar a porta. No interior, ouvia-se a voz de Cristina gritando e batendo nas
paredes, derrubando os móveis e destruindo tudo o que encontrava pela frente.
— Quem está aí dentro com ela? — perguntei, gelado.
— Ninguém — respondeu o médico.
— Mas está falando com alguém... — protestei.
— Está sozinha.
Um zelador chegou correndo, trazendo uma grande alavanca de metal.
— Foi tudo o que encontrei — disse.
O doutor fez que sim, e o zelador enfiou a barra de metal na fenda ao lado da
fechadura e começou a forçar.
— Como conseguiu se trancar aí dentro? — perguntei.
— Não sei...
Pela primeira vez, pude ler o temor no rosto do médico, que evitava meu olhar. O
zelador estava prestes a arrebentar a fechadura com a alavanca, quando, de repente, fez-
se o silêncio do outro lado da porta.