O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 366

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
ela até o médico voltar ao anoitecer e pedir que fosse embora. Em seguida, arrastava-me pelas Ruas desertas sob a neve e voltava ao hotel, jantava alguma coisa e subia para o meu quarto onde continuava a escrever até que o cansaço me vencesse. Os dias deixaram de ter nome.
No quinto dia, entrei no quarto de Cristina como todas as manhãs e encontrei a poltrona onde sempre me esperava vazia. Alarmado, procurei ao redor e encontrei-a acocorada no chão, abraçando os joelhos com o rosto coberto de lágrimas. Ao me ver, sorriu, e compreendi que tinha me reconhecido. Ajoelhei junto dela e a abracei. Penso que nunca fui tão feliz quanto naqueles míseros segundos em que senti seu hálito no rosto e vi que um sinal de luz tinha regressado a seus olhos.— Onde esteve?— perguntou. Naquela tarde, o Dr. Sanjuán permitiu que a levasse para passear durante uma hora. Caminhamos até o lago e nos sentamos num banco. Começou a falar de um sonho que tinha tido, a história de uma menina que vivia numa cidade labiríntica e escura cujas Ruas e cujos edifícios estavam vivos e se alimentavam das almas de seus habitantes. Em seu sonho, como no relato que li para ela durante dias, a menina conseguia escapar e chegava a um cais estendido sobre um mar infinito. Caminhava pela mão do estranho sem nome nem rosto que a tinha salvo e que a acompanhava agora até o fim daquela plataforma de troncos estendida sobre as águas, onde alguém esperava por ela, alguém que nunca conseguia ver, pois seu sonho, como a história que eu tinha começado a escrever, estava inacabado.
Cristina recordava vagamente a Villa San Antonio e o Dr. Sanjuán. Ruborizou-se quando me contou que achava que ele a tinha pedido em casamento na semana anterior. O tempo e o espaço se confundiam em seus olhos. Às vezes, acreditava que o pai estava internado num dos quartos e que tinha vindo visitá-lo. Um instante depois, não lembrava como tinha chegado lá e certas vezes, nem queria saber disso. Recordava que eu tinha saído para comprar passagens de trem e, de repente, se referia à manhã em que tinha desaparecido como se tudo tivesse acontecido no dia anterior. Às vezes me confundia com Vidal e me pedia perdão. Outras, o medo sombreava seu rosto e começava a tremer.
— Está se aproximando— dizia.— Tenho que ir. Antes que veja você. E então, mergulhava num longo silêncio, alheia à minha presença e ao mundo, como se algo a tivesse arrastado para algum lugar remoto e inalcançável. Passados alguns dias, a certeza de que Cristina tinha perdido a razão começou a calar fundo dentro de mim. A esperança do primeiro momento nublou-se de amargura e às vezes, ao regressar à noite para minha