O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 365
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Regressei para o hotel margeando o lago. O recepcionista informou como encontrar
a única papelaria do povoado, onde pude comprar folhas e uma caneta que estavam lá
desde tempos imemoriais. Uma vez armado, tranquei-me no quarto. Desloquei a mesa
para diante da janela e pedi uma garrafa térmica de café. Passei quase uma hora olhando
o lago e as montanhas distantes antes de escrever uma única palavra. Recordei aquela
velha fotografia que Cristina tinha me dado, com a imagem de uma menina caminhando
num cais de madeira estendido sobre o mar, cujo mistério sua memória sempre evitou.
Imaginei que seguia por aquele cais, que meus passos me levavam atrás dela e
lentamente as palavras começaram a fluir, e a armação de uma pequena história insinuou-
se em minhas palavras. Descobri que ia escrever a história que Cristina nunca conseguiu
recordar, a história que a tinha levado a caminhar, quando criança, sobre aquelas águas
reluzentes pela mão de um estranho. Escreveria a história daquela lembrança que nunca
houve, a memória de uma vida roubada. As imagens e a luz que surgiam por entre as
frases levaram-me de volta àquela velha Barcelona de trevas que nos gerou a ambos.
Escrevi até o sol se pôr e não restar nem uma gota de café na garrafa, até que o lago
gelado incendiou-se com a lua azul e meus olhos e minhas mãos doeram. Deixei cair a
caneta e afastei as folhas da mesa. Quando o recepcionista bateu na porta para perguntar
se ia descer para jantar, não ouvi. Tinha adormecido profundamente, acreditando e
sonhando, por uma vez, que as palavras, inclusive as minhas, tinham o poder de curar.
Passaram-se quatro dias ao som da mesma rotina. Despertava ao clarear e ia para a
varanda do quarto ver o sol tingir o lago de vermelho aos meus pés. Chegava ao sanatório
por volta das oito e meia da manhã e costumava encontrar o Dr. Sanjuán sentado nos
degraus da entrada, contemplando o jardim com uma xícara de café fumegante nas mãos.
— Nunca dorme, doutor? — perguntava.
— Não mais que o senhor — replicava.
Lá pelas nove, o médico me acompanhava até o quarto de Cristina e abria a porta.
Ficávamos sozinhos. Sempre a encontrava sentada na mesma cadeira diante da janela.
Aproximava uma das cadeiras e pegava sua mão. Mal reconhecia minha presença. Em
seguida, começava a ler as páginas que tinha escrito para ela na noite anterior. Todo dia,
começava a ler desde o início. Às vezes, interrompia a leitura e quando levantava os olhos
me surpreendia ao encontrar a sombra de um sorriso em seus lábios. Passava o dia com