PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Aproximei-me da cama para que visse meu rosto e o sorriso anêmico que tinha ensaiado para ela.— Não consigo me mexer.— Está presa com correias. É para o seu bem. Quando o doutor chegar, vai retirá-las.— Tire você.— Não posso. Tem que ser o médico a...— Por favor— suplicou.— Cristina, é melhor que...— Por favor. Havia dor e medo em seu olhar, mas sobretudo uma clareza e uma presença que não tinha visto em todos os dias em que estive naquele lugar com ela. Era ela de novo. Desatei as primeiras correias que se cruzavam nos ombros e na cintura. Acariciei seu rosto. Estava tremendo.— Está com frio? Negou.— Quer que avise o médico? Negou de novo.— David, olhe para mim. Sentei na beira da cama e olhei dentro de seus olhos.— Precisa destruí-lo— disse.— Não estou entendendo.— Tem que destruí-lo.— O quê?— O livro.— Cristina, é melhor eu avisar o médico...— Não. Ouça. Agarrou minha mão com força.— A manhã em que foi comprar as passagens, lembra? Subi outra vez ao escritório e abri o baú. Suspirei.— Encontrei o manuscrito e comecei a ler.— É só uma fábula, Cristina...— Não minta. Eu li, David. Pelo menos o suficiente para saber que precisava destruílo...