O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 356

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA metálica. Os três únicos objetos que ocupavam a sala eram uma mesa desnuda e duas cadeiras. O ar cheirava a desinfetante e fazia frio. A enfermeira o tinha chamado de escritório, mas depois de dez minutos esperando sozinho, aboletado numa das cadeiras, não conseguia ver mais do que uma cela. A porta estava fechada, mas mesmo assim dava para ouvir vozes, às vezes gritos isolados entre as paredes. Começava a perder a noção do tempo em que estava ali, quando a porta se abriu e um homem entre os 30 e os 40 anos entrou, vestido com um jaleco branco e um sorriso tão gelado quanto o ar que impregnava a sala. O Dr. Sanjuán, supus. Rodeou a mesa e sentou na cadeira que havia do outro lado. Apoiou as mãos sobre a mesa e examinou-me com uma curiosidade vaga durante alguns segundos antes de abrir a boca. — Soube que acabou de fazer uma longa viagem e, portanto, deve estar cansado, mas gostaria de saber por que o Sr. Pedro Vidal não está aqui — disse por fim. — Ele não pôde vir. O médico me observava sem piscar, esperando. Tinha um olhar frio e aquela atitude especial de quem não ouve, escuta. — Posso vê-la? — Não poderá ver ninguém antes de me dizer a verdade e de eu saber exatamente o que está procurando aqui. Suspirei e concordei. Não tinha viajado 150 quilômetros para mentir. — Meu nome é Martín, David Martín. Sou amigo de Cristina Sagnier. — Nós aqui a chamamos de senhora Vidal. — Não me importa a forma como vocês a chamam. Quero vê-la. Agora. O médico suspirou. — Por acaso o senhor seria o tal escritor? Levantei, impaciente. — Que tipo de lugar é esse? Por que não posso vê-la já? — Sente-se, por favor. Eu lhe peço. O médico indicou a cadeira e esperou que sentasse de novo. — Posso lhe perguntar quando foi a última vez que a viu ou falou com ela? — Cerca de um mês atrás — respondi. — Por quê? — Sabe de alguém que a tenha visto ou falado com ela depois do senhor? — Não. Não sei. O que está acontecendo? O médico levou a mão direita aos lábios, pesando suas palavras. — Sr. Martín, temo que tenha más notícias.